Tribuna do Leitor

Racismo, oportunismo e dor alheia

Prof. Dr. João Eduardo Hidalgo - Professor da Faculdade de Arquitetura, Art
| Tempo de leitura: 3 min

Muitas vezes, quando observo as atitudes e escolhas alheias, me recolho e fico pensando na essência destas posições, mesmo que elas não tenham nenhuma lógica (para mim). Até alguns textos com problemas de conjugação, ortografia e regência me fazem refletir e eu me ponho a divagar.


Dentro do jornalismo ensinamos que o autor nunca deve descontextualizar o fato e muito menos omitir informação. São regras básicas da deontologia jornalística. Em 2011, o centro acadêmico de comunicação colocou cartazes ofensivos a vários professores, nas paredes da faculdade, inclusive portas e paredes de banheiros, ato por si só desprezível dentro de uma universidade pública. Quando editei meu artigo de anteontem acabei eliminando uma informação vital e que estava dentro da minha argumentação o tempo todo; um dos professores recebeu o codinome de Flavio Negão. Negão, Coxeira, Pink, Fidalgo, PCC primores que não pareceram incomodar as pessoas que leram as mixórdias, nem mesmo a dolorida colega, que nesta oportunidade não sentiu ninguém ‘pisando em nossa dor’, com o, alegado humorístico, Negão.


Quando a jornalista informa: “A repercussão do caso gerou num (problema de regência, gerou um) processo contra a entidade que rola até hoje na Justiça”, parece desinformada, mas vou ajudá-la. O centro acadêmico foi condenado em primeira instância em 2013, e em 2015 o Processo Cível nº 0019032-55.2012.8.26.0071 recebeu condenação unânime dos três desembargadores em segunda instância. O relator infere: “Cumpre apenas ressaltar, por amor ao debate, que a sentença motivou fundadamente a necessidade da condenação, apontando diretamente os comentários injuriosos e ofensivos (fls. 81, 85/86 e 313 vº), que extrapolaram os limites do direito de expressão, prejudicando diretamente o ofendido em seus direitos de personalidade, não tendo havido, ao contrário do alegado, somente meros aborrecimentos típicos do cotidiano moderno.”


Amplio: no blog do referido centro acadêmico não são informados dados como, diretoria, números da eleição, que referendariam a sua “representatividade”; também não há registro das atas de assembleias, ações proativas, entre outros procedimentos que seriam esperados de uma entidade ou grupo de alunos, e mais, - o centro nem registro oficial têm. Comportamento nada democrático e nem um pouco transparente, que não parece incomodar as instâncias institucionais da universidade que deveriam regulá-lo.


O oportunismo é algo que me incomoda profundamente, muitas vezes vejo pessoas se unindo a grupos, entidades, Ongs, para autopromoção, e na sua vida cotidiana continuam negando todos os princípios que deveriam representar e defender. Dou dois exemplos, a ministra da Promoção da Igualdade Racial do governo Lula, em 2007, Matilde Ribeiro, foi a ministra que mais gastou com o cartão corporativo, leia-se dinheiro público, e teve que pedir demissão e chorosa desabafou: “estou sendo perseguida por ser mulher e negra.” Na época, fiquei estarrecido, a minha dor como branco e homem foi imensa.


Outro exemplo, em 2013, o estudante Alex Kozloff Siwek atropelou o pintor David Santos Souza, na avenida Paulista em São Paulo, que perdeu um braço, e alegou que fugiu do local por ser judeu, pois teriam gritado para ele ‘voltar para a sua terra’. Como descendente de judeu sefardita espanhol senti nojo da alegação hipócrita, e senti novamente uma dor profunda e me perguntei: será que nos identificam somente com o olhar?


No mais o texto fala de qualidade sem a possuir, nega e distorce informações e faz uso do jornalismo mais rasteiro que se vê nos últimos anos, que é aquele que ofende sem ter nenhum tipo de argumento minimamente plausível.

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