Não pode ser desejo, mas sim estratégia. É imperativo que o país volte a apresentar crescimento econômico. Mesmo sendo uma pré-condição para o desenvolvimento econômico, sem crescimento os indicadores sociais se deterioram. O crescimento econômico oferece mais opções ao Estado. A arrecadação tributária sobe. Fica mais fácil gerar superávit primário e, considerando um Estado eficiente, geram-se excedentes para investimentos produtivos. O endividamento público para de crescer podendo até ser reduzido. No âmbito do setor privado crescimento é sinônimo de ampliação do mercado de trabalho e do ganho do trabalhador. Com excedentes, os empresários investem parte de seus resultados, permitindo acelerar a economia.
Estamos falando, em última instância, em trilhar um caminho que contemple melhoria na qualidade de vida, que seria alcançado com o desenvolvimento econômico, mas sem dinheiro a economia patina e todos os indicadores são precarizados. É preciso ter um pacto nacional para o que podemos denominar de agenda positiva. O primeiro e importante item desta agenda é o equacionamento da crise política. Enquanto prevalecerem os interesses corporativos dos partidos e o revanchismo for a tônica principal das atuações tanto do Legislativo como do Executivo, o país ficará paralisado.
Não é tarefa fácil à medida que há uma série de notícias ruins, principalmente na operação Lava Jato, cujas investigações estão se aproximando cada vez mais dos “medalhões” da política brasileira. É o preço da democracia, mas é preciso abrir duas frentes: uma política, respeitando as instituições, e a outra econômica, com avanços nos ajustes necessários. Para equacionar a questão política não há espaço para que a prática de “quanto pior melhor” prevaleça. O governo federal precisa buscar, no diálogo, condições para rapidamente superar esta fase complicada da cena política brasileira.
Outro item da agenda positiva, que depende da calmaria na política, é a finalização do ajuste fiscal proposto pela equipe econômica. As contas públicas estão cada vez mais deterioradas e sem os ajustes o cenário fica ainda mais complicado. Muitas decisões dependem de aprovação do Congresso e cada dia que passa as coisas complicam ainda mais. Já estamos em agosto e se algo não for feito logo o ano será literalmente perdido, já projetando um 2016 também complicado.
Outro ponto da agenda é o equacionamento dos desequilíbrios do mercado. A inflação é séria, importante e precisa ser combatida. Mas combatê-la somente com o uso da política monetária (principalmente com juros altos) se apresenta ineficaz e não permite a retomada do crescimento da economia. É preciso um olhar setorial. Longe de abandonar o equilíbrio vindo do mercado, mas em economia concentrada como é a do Brasil raramente o mercado é soberano neste quesito. Mesmo com baixas vendas, vários setores elevaram seus preços, como se pouco se importassem com o comportamento dos agentes econômicos. Neste momento somente produtos sazonais poderiam influenciar a elevação de preços, mas o que se observa é a volta da velha prática da indexação da economia, que projeta inflação passada para o futuro. É preciso dialogar com os principais setores da economia e monitorar preços que estão fora de controle.
Ainda no âmbito da agenda positiva é fundamental oferecer condições de sobrevivência às empresas. Tirando os grandes conglomerados que alicerçam a concentração acima colocada, a pequena e média empresas precisam de crédito. Isso tem que vir na instituição do refinanciamento tributário, com pagamento de parcela à vista e o restante parcelado no longo prazo e ainda no estímulo para que o setor bancário nacional volte a atender as demandas destas empresas. Todos os setores estão sem recursos e em especial o setor industrial brasileiro agoniza e algo deve ser feito nesta direção. Não são tarefas fáceis, mas sem crédito, com restrições nas contratações de financiamentos, muitas empresas fecharão suas portas.
Também o setor exportador brasileiro espera mais do câmbio para realizar comércio exterior. É preciso rever a pauta de exportação. Enfim, se a sociedade como um todo e a sociedade civil organizada em particular precisam exigir uma agenda positiva, com os itens aqui colocados e tantos outros não abordados por falta de espaço, pois as consequências serão sentidas, ou melhor, já estão sendo sentidas em maior grau pelos menos favorecidos.
É preciso neste momento exercitar liderança tanto âmbito político como no âmbito da sociedade e com ela recolocar o país no trilho do crescimento. Não dá mais para esperar posto que preço que já pagamos e o ser pago daqui para frente é muito elevado.
O autor é economista e articulista do JC