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Ameaças a todos nós

J.F. da Silva Lopes
| Tempo de leitura: 3 min

Na maioria das profissões, regulamentadas ou não, rígidos códigos éticos bloqueiam a publicidade pessoal e impedem que os profissionais se insinuem perante eventuais clientes. A eles são vedadas, até pessoalmente, as clássicas formas de abordagem publicitária e a conquista de clientela, mesmo nos grandes centros, efetua-se através de rudimentar divulgação boca a boca estritamente assentada na competência do profissional, nos seus atributos de personalidade e nos seus traços visíveis de caráter. Até mesmo na mais antiga das profissões existem limitações éticas na rotina de bordeis e que não permitem às profissionais ir muito além de boas apresentações pessoais, mantida postura de discrição enquanto esperam abordagem.

      

As regras são assim. No dia a dia das profissões o momento em que cliente espontaneamente procura o profissional de que necessita a abordagem pessoal tem a marca da vitória, tem cheiro e sabor de glória que muito engrandece. Aqui e acolá, entretanto, tromba-se com insinuante pilantragem de profissionais que, atropelando regras, tentam amealhar clientes alheios. São exemplos de desagradável mediocridade e os que assim agem costumam andar de cabeça baixa e são facilmente desmascarados pelos próprios olhos incapazes de enfrentar os olhos limpos e puros de seus semelhantes. Seguir as regras éticas evita amargura e confere agradabilíssimo sentido e valor às vitórias obtidas.


Observada a ética a conquista de clientela constitui motivo de justo orgulho. Bem por isso a auto-estima e a comprovação de qualidade se agregam a currículos e experiências que asseguram, muito além de respeito e qualificação, espaço de atuação solidamente edificado e aperfeiçoado pela militância e adequado para garantir justo e produtivo exercício profissional. Aquele que tudo isso conquista vibra com muito orgulho nas suas vitórias, não costuma cogitar de renuncias e nem mesmo imagina lançar ao lixo o esforço de vida amealhado dia após dia com extremo sacrifício. Em princípio orgulho pelas conquistas profissionais e renúncia são incompatíveis.


A advogada Beatriz Catta Preta, hoje nacionalmente conhecida, certamente com sacrifício e escorada em seus próprios atributos pessoais conquistou seu espaço profissional e, ao que se sabe sem afrontar regras da profissão amealhou clientes também nacionalmente conhecidos pelo envolvimento na “operação lava jato” e a eles ofereceu a vista de situações legais patrocínio profissional e assistência adequada que lhes permitiu acesso homologado judicialmente para obtenção dos benefícios das delações premiadas.


Foi, porém, com alarmante velocidade e com imensa carga de surpresa que essa profissional, vitoriosa na sua proposta de atuação profissional, anunciou renunciar, além de seus clientes, as suas próprias e vitoriosas conquistas profissionais impulsionada, segundo o que afirmou numa incompleta entrevista, por genéricas ameaças e intimidações cometidas por pessoas físicas não identificadas e tudo isso num país que mantém sólido ordenamento jurídico e respeitáveis instituições, dotados de imensa força protectiva capaz de garantir a vida, a integridade física, a liberdade e a segurança de todos aqueles que estiverem ameaçados.


Nestes tempos em que nada mais parece surpreender a postura dessa advogada e sua renúncia às suas legitimas conquistas é inusitada e surpreende e por isso exige e merece apuração para esclarecer quem, quando, onde, de que forma e com quais propósitos a ameaçou e intimidou. E as respostas devem vir logo para evidenciar que nem tudo está perdido e que existe luz de esperança no fim deste tenebroso e escuro túnel. Contudo, os cidadãos em geral, os advogados em especial devem, desde agora e até o fim deste triste episódio, permanecer em vigília cívica e atentos, diante de uma ordem jurídica que parece abalada e de estruturas institucionais que parecem frágeis e insuficientes para garantir a todos nós.


O autor é advogado e articulista do JC

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