O rápido processo de degradação do segundo mandato da sra. Dilma Rousseff faz crer que o seu governo acabou, antes mesmo de ter se iniciado. Nestes 25 anos de redemocratização, nunca um presidente atingiu níveis tão baixos de popularidade. Apenas 8% ainda acreditam que depois deste “ano de travessia” o país possa chegar a algum lugar. Tudo soa falso como o rosto sem rugas da presidente, na propaganda do seu partido.
O programa do PT não convenceu, ainda que tentado a calçar as sandálias da humildade. O papel de salvador da pátria, próprio do lulismo, continuou sendo a tônica. “Nosso pior momento ainda é melhor para o trabalhador que o melhor momento dos governos passados” – afirma Lula. No final, ainda sobrou ironia com os panelaços promovidos por uma população cansada de corrupção e mentiras eleitorais. Durante o programa do PT, no meu bairro, o som das panelas vindos da sacada dos prédios chegou a assustar os cachorros. O número que os tuiteiros foram expostos ao termo “panelaço” saltou de 124 milhões para 488 milhões, ou seja, 294% maior. Recorde no país. Ajudou a inflamar os ânimos daqueles que ainda tinham dúvidas em sair às ruas no dia 16 de agosto, vestidos de verde e amarelo. Já não pega mais o discurso do “nós contra eles”, da esquerda versus neoliberalismo. A miséria da esquerda virou a esquerda da miséria, com a degenerescência moral da política populista. Aécio e FHC seriam os lobos maus. Serra, o vampiro, nem apareceu. – “A crise é passageira e deve-se a uma questão externa e tem gente querendo se aproveitar para abalar as instituições e levar o país a um conflito.” Só faltou dizer, embora tenha ficado no subtexto do programa petista, que os tanques podem voltar às ruas e teremos mais 21 anos de ditadura.
Os militares nem saem mais às ruas fardados. Em 1964 a farda era uma atração para facilitar a conquista de namoradas bonitas. Os tempos são outros. Naquela época não havia twiter, nem internet. A guerra fria acabou. O Brasil urbanizou-se. As Forças Armadas deixaram de ter uma presença política importante. O único caminho do governo do PT seria reconhecer que errou e procurar o diálogo. Diferente do estilo arrogante do programa, hostil à oposição, o ministro-chefe da Casa Civil Aloizio Mercadante esteve na Câmara, elogiou o papel do PSDB na estabilização econômica e pediu um “acordo suprapartidário”. É o “juízo” que o presidente do PT Rui Falcão pede aos que desejam “desestabilizar um governo eleito democraticamente”, mas que falta aos demais integrantes da cúpula petista.
A presidente da República chegou a essa situação delicada, em grande parte, porque, depois de eleita colocou em prática muitas medidas impopulares que renegou na campanha eleitoral. A seu favor, há o fato de, sem outra saída, ter assumido o ônus do ajuste fiscal, quando a situação já se mostrava insustentável. Enquanto isso, a base de sustentação do governo se esfarela. O baixo clero se manda. Nem com o próprio PT, Dilma pode contar. O mercado e os agentes econômicos há muito deixaram de confiar. Dessa forma, a nota de risco do Brasil irá mesmo abaixo do “grau de investimento”, com todas as implicações previsíveis: redução de investimentos externos, diretos e para aplicações financeiras; portanto, maiores desvalorizações cambiais, cujo resultado será novo choque de inflação.
A situação delicada deveria aproximar os políticos responsáveis de todos os partidos para dar condições e governabilidade ao Planalto. Melhor que a tese suicida do impeachment, com o consequente prolongamento da recessão e do desemprego. Nada leva a crer que Dilma esteja metida nos escândalos de corrupção. Se José Dirceu, aos 69 anos, descobrir que não está disposto a morrer na cadeia por Lula, só porque ficou com parte do pixuleco, o verdadeiro chefão vai para o sétimo círculo do inferno de Dante. É uma questão para a polícia e o Judiciário. O momento exige responsabilidade de todos os que têm condições de livrar o país dessa dupla crise, a política e a econômica, legada por um presidencialismo de compra e venda. Melhor construir pontes, do que atravessar a corrente.
O autor, é jornalista e articulista do JC