A palavra traduz puros sentimentos ou manifesta ódios e rancores. Com a palavra o homem compõe versos; fala de amor e esperanças. É pela palavra que declaramos guerra e por meio dela obtemos a paz.
Tanto que tenho falado, tanto que tenho escrito como não imaginar que sem querer já feri alguém?
Às vezes, também a gente tem o consolo de saber que alguma coisa que se disse por acaso ajudou alguém a se reconciliar consigo mesmo ou com a sua vida de cada dia; a sonhar um pouco, a sentir uma vontade de fazer alguma coisa boa.
Agora sei que outro dia eu disse uma palavra que fez bem a alguém. Deve ter sido alguma frase espontânea e distraída que eu disse com naturalidade porque senti no momento - depois esqueci.
Na década de 1940, no “Posto Telegráfico km 263”, da EFS, localizado no antigo traçado Juquiratiba x Botucatu (mais conhecido como linha velha de Pirambóia, que também passava na cidade de Vitoriana), meu pai ganhou um pintassilgo. Pendurou a gaiola na gare e o pássaro não cantava. Benedito Rodrigues, seu auxiliar, dera-lhe receitas para fazer o pintassilgo cantar: que batesse velozmente as teclas do telégrafo; que acionasse o sino da estação; que pusesse a gaiola perto quando a locomotiva passasse acelerando... Mas o pássaro não cantava.
Um dia, encerrado o expediente ferroviário, meu pai ia caminhando pela plataforma, sozinho, distraído e assobiou uma pequena frase melódica de meu avô (Máximo Brosco) e o pássaro começou a cantar alegremente. Haveria alguma secreta ligação entre a melodia do velho austríaco falecido (natural de Viena: berço da música) e o pássaro amarelo de manchas pretas?
Alguma frase distraída que eu disse: talvez palavras de algum poeta antigo fossem despertar melodias esquecidas dentro da alma de alguém. Foi como se num reino muito distante, uma princesa muito triste tivesse sorrido. E isso fizesse bem ao coração do povo: iluminasse um pouco as suas choupanas e as suas remotas esperanças.
Obs. O presente artigo é parte integrante do livro ”Nos Áureos Tempos da Ferrovia”, de autoria de nosso querido e amado pai, Wanderley Brosco, chefe geral de estação da EFS/FEPASA/CPTM, aposentado. Nesse dia especial do “Dia dos Pais”, quem ganhou o presente fomos nós, o Senhor Jesus nos presenteou com um Pai maravilhoso, te amamos, Papai.
Cláudia Brosco e Carolina Brosco.