Regional

Terço dos homens ajuda a reduzir índice de suicídios em Dois Córregos

Rita de Cássia Cornélio
| Tempo de leitura: 3 min

Culturalmente rezar é uma atividade das mulheres. Em Dois Córregos (73 quilômetros de Bauru), uma iniciativa da igreja católica mudou este paradigma. O terço dos homens, que acontece todas as segundas-feiras na igreja matriz, reúne em média 800 frequentadores. Pais, filhos e netos participam e rezam pela família. O encontro que, inicialmente era religioso, transformou o relacionamento dos moradores que passaram a chegar mais cedo para trocarem ideias e desabafarem, coisa rara para o momento atual.

A ideia partiu do padre José Carlos Frederice que chegou à cidade há pouco mais de dois anos. “Nessa época a cidade de Dois Córregos apresentava um alto índice de suicídio. Em 2012 tivemos 69 mortes. Deste total, 19 deles se mataram,  12 eram jovens. Neste mesmo ano aconteceram 11 acidentes de trânsito com oito mortes. A praça da matriz era frequentada por jovens que usavam álcool e drogas além de exibirem som alto. Foi esse o cenário que encontrei quando cheguei de São Carlos.”

Na busca por uma solução, o religioso lembrou que na Comunidade Cenáculo São Lourenço havia a terapia da oração e trabalho para resgatar os jovens das drogas. “Eu vou todas as quartas-feiras trabalhar numa comunidade terapêutica. Celebro missa e converso com os jovens. Nos diálogos percebi que eles venciam o obstáculo das drogas rezando e trabalhando. Lá eles cultivam horta, pomar, tratam dos animais etc. Tem esportes também.”

O padre lembra que via muitos pais chorando nos velórios. Eles tinham perdido seus filhos. “A cidade ficava triste. Era quase uma cultura. Então resolvi instituir o terço dos homens dizendo assim: pais de joelhos, filhos em pé. Esse era o meu lema. Depois usamos outro slogan, onde os homens se reúnem para rezar a terra treme, porque queríamos que os pais viessem rezar para seus filhos não morrerem. Para que não houvessem mais suicídios em Dois Córregos. Também para que parassem um pouco a bagunça do som alto, álcool e drogas. Aqui era um verdadeiro inferno.”

Para ilustrar sua tese, o religioso usa números. “Não era só os moradores que participavam da bagunça. Vinham moradores da região. Aqui cada um fazia o que queria. Vinham disputar som de carro, ‘jipada’ regada a muito álcool e outras drogas. De sexta para sábado eram descartadas de 200 a 300 garrafas vazias. O vasilhame ficava jogado no jardim central e em volta da igreja.”

Para iniciar o “projeto”, o religioso contou com a ajuda da administração municipal e Polícia Militar. “Fizemos um trabalho com a prefeitura para limpar e iluminar as praças. Um trabalho de conscientização de trânsito junto com a PM. E, eu na missa falava com a população sobre cidadania e oração. Foi um trabalho social. Iniciamos o terço dos homens com 80 deles e hoje tem cerca de 800 que se reúnem na igreja matriz do Divino Espírito Santo.”
Paralelo a isso, as mulheres começaram a se reunir, numa outra igreja, na Santo Antônio também para rezar o terço. Atualmente, são cerca de 150 mulheres que rezam o terço puxado por uma delas. Há maridos que deixam a mulher na igreja Santo Antônio e seguem para a matriz para rezar o terço que é realizado também às segundas-feiras às 19h30. “Na matriz sou eu quem puxa o terço. O padre é quem lidera os homens.”

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