Regional

Um time de 800 homens que rezam toda semana

Rita de Cássia Cornélio
| Tempo de leitura: 3 min

“As pessoas precisam de um caminho, de um sinal, elas procuram conforto. Somos um time de homens, alguns que não frequentavam a igreja, que se reúnem para cantar e rezar o terço todas as segundas-feiras. Inicialmente não acreditei na proposta do padre. Confesso que achei que não ia ninguém. Eu fui porque estava ligado nas atividades da religião. No primeiro dia tinha cerca de 50 homens. Número que me surpreendeu. Nas semanas seguintes tinha 100, 150, 200. Hoje somos 800,” essa é a opinião do professor de história aposentado Francisco Augusto Prado Telles, 70 anos.

A atitude do pai de família motivou seu filho e seu neto a fazerem o mesmo. “Eu gostei da iniciativa, foi algo surpreendente. Meu filho é o prefeito de Dois Córregos e vai religiosamente ao terço. Meu neto também. Foi uma surpresa para todo mundo, uma proposta religiosa só para homens. A primeira ideia é que aquilo não vai vingar, de repente vingou.”

Ele lembra que culturalmente as mulheres são mais propensas a frequentar a igreja e a rezar. “Elas são mais religiosas. Um terço só para homens surpreendeu até minha mulher. Percebi que rezar o terço aproximou as pessoas. Elas mudaram de comportamento. Se encontram no terço e se reconhecem nas ruas da cidade. Um sentimento de união e fraternidade tomou conta dos moradores.”

A aproximação pode ser sentida, na opinião dele, é no início e final do terço. “As pessoas conversam na praça da matriz, chegam antes do início. No final, alguns fiéis ficam para cumprimentar o padre e se falam, se conhecem. No início do terço, o padre pede para determinado doente ou para uma família que está enfrentando problemas e todos rezam juntos.”

A praça em frente à matriz vivia cheia de jovens que bebiam e usavam drogas. “Tivemos muitos suicídios que eu credito ao desencanto pela vida. Eu não conhecia as pessoas que se mataram, mas hoje a paz é geral. Até quem não tinha religião começou a frequentar o terço. O espaço público foi reformado e hoje é frequentado pelas famílias.”

Para que o time ficasse visível, o padre propôs o uso de uniforme. “A ideia do uniforme remete a união. É um time rezando, uma equipe. Fomos a uma romaria em Aparecida do Norte com as pessoas uniformizadas.”


Região participa 

O sucesso do terço masculino ganhou espaço e muitos moradores de outras cidades têm frequentado a matriz de Dois Córregos, comenta o padre José Carlos Frederice. “Temos recebidos fiéis de Pederneiras, Barra Bonita, Brotas, Mineiros do Tietê, Torrinha, Bariri e  Bocaina. Outro dia veio um ônibus de Pratânia com  30 homens para rezar aqui.”

Na avaliação do religioso uma atitude simples melhorou a vida das pessoas. “Melhorou o relacionamento entre irmãos”.


Milagre da oração

O aposentado Francisco Augusto Prado Telles lembra que um pai, durante um dos terços, foi juntamente com a mulher a filha recém-nascida agradecer as orações. “O que aconteceu com a recém-nascida foi considerado um milagre. Ela estava com infecção generalizada com sete dias e com 1% de chance de viver.”

O pai foi ao terço e pediu orações. “A menina sarou e o próprio médico, segundo os pais, creditaram a saúde da filha a um milagre. A fé das pessoas somadas ao reforço de todos que rezam pode mover montanhas.”


Crianças brincam na praça

As crianças podem brincar nas praças, o trânsito melhorou e nos finais de semana os jovens não descartam mais os vasilhames de bebidas na praça. Este foi o resultado imediato, segundo o padre José Carlos Frederice, após as intervenções feitas por ele junto à prefeitura e PM.

Na sequência, os resultados se mostraram positivos. “Em 2013, o índice de suicídio que foi de 19 em 2012, caiu para sete, cinco adultos e dois jovens. Em 2014, apenas um. Neste ano, nenhum, até julho. O barulho infernal de carros acabou. Não se vê mais ninguém com carros abertos tomando cerveja. O pessoal se conscientizou que na nossa cidade não precisava daquilo para ser feliz. Mudamos o comportamento da cidade.”

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