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Saúde em discussão

Dulce Kernbeis
| Tempo de leitura: 6 min

“Se nas décadas de 80/90 os skates e patins eram os grandes aliados dos ortopedistas, hoje os smarts são os aliados dos oculistas”, brinca o médico Fábio Saab para exemplificar que tem recebido em seu consultório várias queixas de desconforto visual.

Hoje em dia é muito comum ver pessoas andando enquanto usa o celular ou tablets para mandar mensagens, jogar ou ler.

Isso passou a ser inevitável, porém, ler em movimento pode gerar fadiga maior nos músculos responsáveis pelos movimentos dos olhos, criando uma fadiga visual.

Os sinais que estamos forçando os olhos são: ardência, vermelhidão, visão embaçada e dor de cabeça.

Em tempos de tablets, computadores e celulares, os pais precisam prestar atenção aos sinais, se os filhos estão confortáveis, se os olhos estão vermelhos, lacrimejando. E não é só: adultos também precisam estar atentos ao que se chama de CVS – “Computer Vision Syndrome”, um cansaço visual associado ao uso prolongado do computador.

“A CVS é muito comum hoje pois cada vez mais usamos computadores para o trabalho, alem dos dispositivos móveis que nos ultimos anos ficaram muito populares e hoje quase todo mundo os usa – além do fato de que a tela desses dispositivos, no caso os smart,  sao ainda menores que a tela do computador”, lembra ainda o oftalmologista Saab.

Focar e refocar

Especialista em saúde dos olhos, ele recorda que “a visão não foi criada para encarar uma tela de computador durante muitas e muitas horas”.

“Monitores de computadores e telas de tablets e smartphones são compostos de pixels (minúsculos pontos), nos quais o olho não consegue foco. Os usuários desses dispositivos têm que ‘focar e refocar’ para manter as imagens bem definidas. Isto resulta em tensão dos músculos dos olhos”.

Adicionalmente, durante uso prolongado desses aparelhos, é diminuída a frequência de piscar, que causa olhos secos e doloridos. Como resultado, a habilidade para focar diminui e podem ocorrer dores de cabeça e no pescoço.

Isso tudo além do fato de que os usuários das telinhas tendem a usá-las em posições inadequadas, como deitados e “muito próximos dos olhos”, lembra.

Telas modernas

Mas o médico faz questão de enfatizar que os aparelhos não causam problemas de visão, no sentido de que emitem mínima ou nenhuma radiação prejudicial aos olhos. A quantidade de radiação ultravioleta produzida por estes é uma pequena fração da produzida por iluminação fluorescente. Um alívio. Mas há sim desconforto e é preciso

Os sintomas de CVS acontecem também como resultado de condições externas como falta de iluminação, má localização da iluminação, posição imprópria do monitor, tela suja, e problemas oculares pré-existentes (miopia, hipermetropia, presbiopia, etc.). Qualquer pessoa que passa aproximadamente duas horas por dia em um computador pode desenvolver CVS.


Mais sobre problemas oculares

Fábio Saab dá conselhos práticos para quem usa muito computador, ou mesmo os smartphones e lembra que “para continuar usando tranquilamente esses dispositivos, é importante procurar seu oftalmologista e ver se não está com problemas oculares ou necessitando de óculos (ou mesmo atualizar seu grau)”.

“É preciso também ter em conta que se uma pessoa de idade está usando óculos desenhados para leitura, pode não obter foco no vídeo, que costuma estar a maior distância dos olhos. Se a mesma pessoa usa bifocais (com a visão para perto na parte inferior), precisará elevar a cabeça para utilizar a parte adequada do óculos e estas situações causam problemas que podem ser resolvidos com óculos adequados”.

E mais: “Estes óculos não são especiais para esse tipo de dispositivo, mas “terão seu grau adaptado pelo oftalmologista para a distância da tela. Sem contar que além do cansaço visual só um médico pode dizer se há outro tipo de doença”. Tem até empresa de telefonia móvel fazendo campanha contra exageros sobre uso. Vale o cuidado.


Quando procurar ajuda psicológica

Embora ainda não haja  consenso sobre a existência de uma dependência ou adição ao smartphone, e a comunidade científica se refira a “problemas associados” ao seu uso, há, entre os próprios usuários, os que se definem como dependentes ou viciados, reconhecendo que não controlam o uso excessivo.

Muitos se referem à dependência psicológica, que inclui um desejo irresistível de usar a rede, com incapacidade de controlar seu uso; irritação quando não conectados e euforia assim que conseguem acesso.

Há uma espécie de obsessão pela vida virtual e  pouco interesse pela vida presencial, além de problemas com o sono, a alimentação, os relacionamentos offline e o rendimento nos estudos ou trabalho. 

A preferência pela vida virtual em detrimento da presencial pode trazer muitas consequências negativas, tais como colocar em risco relacionamentos importantes (casamentos, relações entre pais e filhos, etc.), relacionamentos sociais e  prejuízos escolares e no trabalho.

Com isso concorda a psicóloga Carmen Neme, que relata: “Para alguns pesquisadores no campo da saúde mental, o uso excessivo destas novas tecnologias deve ser abordado como dependência ou adição, pois os sintomas desta adição são comparáveis aos de outras adições não químicas”.

Fenômeno

Como parte dos sintomas do uso excessivo, pode-se mencionar  a ansiedade, o isolamento,  a baixa autoestima,  o pobre controle  de conduta, o desinteresse por outras temáticas, além da negação do problema por ampla parcela destes usuários, que também experimentam  o mau-humor e a  irritação quando são impedidos de usar seus smartphones.

Alguns pesquisadores deste fenômeno acreditam que estes sintomas devam ser identificados como um tipo de Transtorno do Controle do Impulso (TCI), numa categoria de síndromes que ainda aguardam validação.

“De fato, na realidade, qualquer  atividade normal prazerosa pode se converter numa conduta aditiva. O  que define a conduta aditiva é a perda do controle quando se executa a atividade em questão, é a sua continuidade, apesar  dos conflitos que gera ou das variadas consequências negativas que provoca, assim como, a produção de uma dependência cada vez maior dessa conduta”, diz a profissional.

A especialista cita ainda que é preciso, quando esse transtorno traz dificuldades sociais, procurar ajuda. E finaliza lembrando que o TCI  é um fenômeno, pois “representa um dos paradoxos da vida atual”.

“Nunca estivemos tão ‘ligados’ uns aos outros, nos comunicando em tempo real com o resto do mundo e, paradoxalmente,  nunca estivemos tão sós e isolados”, diz.

“O mal-estar contemporâneo já tem se definido como solidão e depressão. Solidão, e depressão, são sinônimos de muito sofrimento psíquico e de porta aberta a inúmeras outras formas de adoecimento”, sentencia. Todo o cuidado é pouco.


Como evitar o cansaço

Os sintomas de CVS (Computer Vision Syndrome) acontecem também como resultado de condições externas como falta de iluminação, má localização da iluminação, posição imprópria do monitor, tela suja, e problemas oculares pré-existentes (miopia, hipermetropia, presbiopia, etc.). Qualquer pessoa que passa aproximadamente duas horas por dia em um computador (ou usando o celular) pode desenvolver CVS.  Há certas medidas preventivas que podem reduzir o cansaço visual, veja o que diz o médico: posicionar o monitor 50 a 60 centímetros dos olhos; iluminar bem a sala do computador, minimizar os reflexos na tela alterando a posição do monitor ou das luzes; limpar a tela do computador frequentemente para melhorar a visibilidade; utilizar um filtro anti-reflexo na tela do computador; na tela do smart isso é mais do que fundamental; descansos periódicos são importantes – você pode utilizar a técnica 20-20: a cada 20 minutos de trabalho, descanse 20 segundos olhando para longe ou fechando os olhos; ou a técnica 60-5: a cada 60 minutos de trabalho, descanse seu olhos por 5 minutos; para evitar a astenopia – ou o popular embaçamento da visão – além dos intervalos a pessoa precisa lembrar de piscar. Ficando muito focado na tela, o usuário não pisca e, daí não há a correta lubrificação do olho.

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