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Prof. Eduardo Velho Filho e nós!

Márcia Lopes Reis
| Tempo de leitura: 4 min

Em meio a tantas notícias ruins dos últimos meses, há alguns dias, soubemos de algo diferente: a escola Professor Eduardo Velho Filho, no Jardim Santana, em Bauru, próxima ao Terminal Rodoviário, é a melhor da rede pública do Estado de São Paulo avaliada pelo Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), excetuando as instituições de ensino técnico. Poderia ser simplesmente mais uma escola bem colocada em um ranking de escolas públicas de ensino médio, mas não se trata somente disso! Todos temos um compromisso para que esse ‘topo’ não seja um ponto de chegada e, sim, parte de uma trajetória diferenciada dos jovens que ali estudam. Portanto, isso tem a ver conosco por alguns motivos.

O primeiro deles é o fato de que um grupo de professores daquela escola, corajosamente, aceitou o desafio de compor um conjunto de estabelecimentos de ensino médio de tempo integral em 2013. O depoimento de alguns componentes do corpo diretivo como a profa. Emily Querobim Ionta Daccach evidencia que o sucesso do desempenho dos estudantes avaliados também se deve a esse sistema proposto que acompanha o desenvolvimento individual de cada aluno e compartilha a responsabilidade de participar do processo de gestão do seu conhecimento. Nesse sentido, a escola se aproxima das tendências em educação deste início de século XXI: o estudante não é apenas um consumidor de informações... ele deve ter as condições para “vir a ser” o gestor do conhecimento!

O segundo argumento estaria no fato de que isso ocorre exatamente com uma camada da população que, até bem pouco tempo, foi vista como a nova classe C – de consumo! Como tal, foi bombardeada por propagandas que incentivaram o consumo irresponsável e inconsequente das sociedades capitalistas sem visão de futuro. Pois bem, quando a dirigente regional, Gina Sanchez - bem como a diretora da escola, Giovanna Xavier de Almeida afirmam que “aqui o aluno participa, não é apenas o professor o responsável pelo aprendizado”, o protagonismo destes jovens é algo que diferencia, mais uma vez, o projeto desta escola.

O terceiro argumento trata da forma complexa desse processo que não é simples: trabalho colaborativo, respeito às diferenças em meio à diversidade é algo igualmente importante. Isso fica evidenciado em alguns depoimentos dessas gestoras: “Eles têm até um clube de ajuda aos colegas, facilitando a resolução dos problemas, e ainda fazem ações de acolhimento aos novos estudantes”. Na prática, isso ocorre quando se observa o currículo da escola com sua parte diversificada, com aulas eletivas, conteúdos de formação e de um projeto de vida.

Projeto de vida? Exatamente aí reside o quarto e último argumento de que esse êxito passa a ser responsabilidade da comunidade bauruense: nesse modo de conceber e fazer educação, a escola deu aos estudantes mais responsabilidade sobre si mesmos e fomentou, com isso, a vontade de estudar. Veja o depoimento desta estudante: “Quando entrei aqui percebi que era diferente, porque me senti como parte do processo de aprendizado, o que não acontecia na escola onde estudava, que é particular” ou, ainda, outras estudantes como  Juliana Betti, Isadora Figueiredo e Juliane Meirelles - todas oriundas de escolas particulares para fazer o ensino médio nessa escola estadual: “Aqui, a gente pode gerenciar nosso aprendizado”, diz Isadora. “Eu consegui ter uma visão do que é o mundo fora da escola e do que realmente eu quero para minha vida, o que eu não conseguia na escola particular”, completou Juliana. O estudante que sistematiza seu pensamento dessa forma lança um nível de responsabilidade para além dos muros das escolas!

Tudo isso num contexto em que, dos 280 estudantes da escola, 44,8% são de famílias com renda entre 3 e 4 salários mínimos e, apenas 10%, são de famílias com renda acima de 6 mínimos. Ainda assim, o projeto dessa escola inclui a figura de um tutor – privilégio historicamente reservado às classes mais favorecidas no nosso país. Aliás, o plano de trabalho dessa escola inclui outros privilégios como acesso às notícias na condição de leitores de jornais numa parceria que este mesmo Jornal da Cidade possui há alguns anos com aquela instituição. Todos sabemos que a leitura do jornal, periodicamente, por si só, não muda muito em relação aos conteúdos estudados. No entanto, esse conjunto de práticas num contexto de ‘projeto de vida’ extrapola as salas de aula e o pátio da escola para abranger o modo como pensamos, sentimos e agimos em sociedade. Assim, a Escola Estadual Prof. Eduardo Velho Filho representa muito do que, nós – cidadãos – desejamos como projeto de sociedade! Nessa sociedade em projeto somos uma construção coletiva com nossas diferenças culturais! Para que os projetos de vida que realizam faça sentido, devemos também nós, cotidianamente, colocar em ação modos diferenciados de ser. Que venham os próximos desafios!

A autora é professora doutora na Unesp-FC/Departamento de Educação

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