Polícia

Latrocínio: vítima deixa um legado de ajuda ao próximo

Tisa Moraes
| Tempo de leitura: 5 min

Fotos: Malavolta Jr.
Velório: familiares e amigos lamentaram a perda
Nos finais de ano, Hugo se vestia de Noel e ajudava crianças carentes; “não era meu patrão, era um irmão”, diz a faxineira Mariza Souza 
Em 2014,  Hugo foi ‘clicado’ vestido de Bom Velhinho pelo fotógrafo do JC Douglas Reis 

“Perdem a Secretaria da Fazenda, a maçonaria, a família, os amigos, a filantropia e as incontáveis pessoas que ele ajudou”. É assim que o amigo de longa data Uriel de Almeida descreve a morte do agente fiscal de renda Hugo Paulo Teixeira, 57 anos, assassinado após reagir a assalto em sua chácara, na noite da última quarta. A vítima entra para uma triste estatística de mortes em Bauru nos últimos dias.

Nessa quinta-feira (13), durante o velório, pessoas que conheciam Hugo de perto foram unânimes em afirmar que sua capacidade de olhar e cuidar do próximo sempre foi uma de suas principais características. Durante os últimos dez anos, inclusive, o agente fiscal incorporou a figura do Papai Noel nas campanhas desenvolvidas pelo grupo Amigos em Ação, que distribui, em todo dezembro, brinquedos e cestas básicas para famílias de baixa renda.

“São voluntários da Secretaria da Fazenda e empresários parceiros, que contribuem financeiramente para a compra de tudo o que é doado. E ele participava ativamente”, conta o filho único da vítima, Lucas Teixeira, 26 anos.

De acordo com ele, Hugo pertencia à maçonaria e, com a ajuda de um amigo da sociedade, mobilizou empresários para arrecadar recursos e materiais para a construção de uma casa, que foi doada a uma mulher com problemas de saúde, que tinha quatro filhos e condições precárias.

O cunhado Benedito Aurélio dos Santos, 63 anos, conta que Hugo tinha uma vida bastante ativa, cercada de amigos. Assim como todos, o parente destacou a preocupação constante que o agente fiscal tinha com a coletividade. “Para você ter uma ideia, ele sempre deixava uma cesta básica no porta-malas do carro, caso encontrasse uma pessoa em situação difícil que precisasse de ajuda. Ele nunca fez mal a ninguém. Fazia tudo pensando nos outros”.

Doação ao próximo

Nascido em Bauru, Hugo trabalhou por décadas como agente fiscal de renda da Secretaria da Fazenda. O colega de trabalho Uriel de Almeida conta que, mesmo dentro do órgão, sua vertente solidária ficava evidente. “Às vezes, o salário dos trabalhadores de empresas terceirizadas, de limpeza e segurança, atrasava. E ele disparava campanhas para arrecadação de cestas básicas. O Hugo tinha uma capacidade de doação ao próximo muito grande”, observa.

Há cerca de três anos, o agente fiscal deixou o apartamento em que morava na Vila Coralina para viver com a esposa em uma chácara às margens da Bauru-Iacanga, onde permaneceu até sua morte. “Ele gostava de cuidar da horta e dos quatro cachorros. Era uma terapia”, relembra o filho.

Desde então, passou a contar com a ajuda da faxineira Mariza Souza, 54 anos, que estava inconsolável, durante o velório, com a morte trágica do patrão. “Ele não era meu patrão. Era meu irmão, meu amigo, que sempre me ajudou. Fazia questão que os empregados comessem na mesa junto com ele. Não tinha discriminação de classe, de cor. Era um homem muito bom, que não merecia morrer desse jeito”, lamenta.

Além da esposa e do filho Lucas, Hugo deixa uma neta de um ano e sete meses. O corpo foi velado no Centro Velatório Terra Branca e sepultado, no final da tarde de ontem, no Cemitério Jardim dos Lírios.

Cerca de dez facadas

Hugo Paulo Teixeira foi morto em um assalto na chácara em que vivia, na altura do quilômetro 356 da rodovia Bauru-Iacanga, na região do Vale São Luiz. Conforme o JC noticiou, dizendo que estavam interessados em comprar outra propriedade, os quatro criminosos renderam Hugo na entrada da chácara.

Enquanto o agente permaneceu rendido na varanda pelo único homem do bando, a mulher foi levada pelas três criminosas para dentro da casa, onde ficou sob a ameaça de uma faca.

Durante cerca de meia hora, os ladrões reviraram toda a chácara, de onde roubaram equipamentos eletrônicos, cheque, perfumes e até mesmo uma espingardinha de chumbo. Em dado momento, o assaltante que estava na varanda fez menção de entrar na casa, quando Hugo reagiu, conforme relata o filho Lucas Teixeira. 

“Não sei se meu pai pensou que ele pudesse fazer algo com minha mãe ou que talvez fosse a chance de surpreender e render o cara”, conta. O agente fiscal acabou sendo agredido e foi esfaqueado por cerca de dez vezes.

A esposa tentou intervir e acabou sofrendo cortes superficiais em uma das mãos. Bastante abalada, ela se mudou temporariamente para a casa do filho, que possui planos de vender a chácara para a segurança física e emocional da mãe.

Dedo de assaltante foi encontrado na chácara

Horas depois do crime, ainda na noite de quarta-feira, policiais localizaram um dedo humano, possivelmente do homem que matou Hugo, já que a vítima e a esposa não tiveram o membro decepado. A principal hipótese é de que, durante a luta corporal, o agente fiscal tenha atingido a mão do assaltante com a faca usada no momento em que tentou reagir.

O dedo foi encaminhado ao IML e, segundo o delegado Eduardo Herrera, da Delegacia de Investigações Gerais (DIG), a amostra da impressão digital poderá contribuir para a identificação do criminoso. Amostras de sangue que também foram recolhidas na cena do crime ainda serão analisadas.

“As diligências prosseguem. Toda a DIG está mobilizada para o esclarecimento, mas não podemos divulgar mais informações para não prejudicar o andamento das investigações”, resume Herrera.

A chácara onde a vítima e a esposa viviam foi invadida por um homem e três mulheres. Segundo a esposa, que teve a identidade preservada, o homem era magro, alto e pardo. Já as mulheres, também pardas, tinham cabelos crespos e idades entre 18 e 20 anos. A Polícia Civil pede para que informações sobre o paradeiro dos criminosos sejam comunicadas ao 197.

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