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Planeta dos Cachorros

Vitor Oshiro
| Tempo de leitura: 2 min

Sábado retrasado. 11h da matina. Congestionamento em direção a um shopping da cidade. E a crise? Mas era véspera do Dia dos Pais. Explicação óbvia. Opa! Espera aí. Só 10% daquela fila entrava no shopping. A grande demanda era para o vizinho: um centro de compras para animais. Eu, inclusive, era um deles. “Nunca pensei que haveria filas para comprar coisas de animais e não para o shopping”, disparou um consumidor, ao meu lado, já no caixa do tal “shopping pet”. Sinal dos tempos.


Ao contrário da grande maioria dos setores, o mercado pet parece não ouvir os “latidos” (perdoe-me este trocadilho e todos os outros presentes neste artigo) da retração econômica. Em 2014, quando o País já começava a ir mal das pernas (ou patas), os brasileiros gastaram R$ 16,7 bilhões com produtos e serviços para os animais. Um crescimento, segundo a Associação Brasileira da Indústria de Produtos para Animais de Estimação (Abinpet), de 10% em relação a 2013 e que colocou o Brasil na vice-liderança.


E mais: quase 67% do total de 2014 foi gasto com ração. Com um saco de ‘não-sei-quantos-quilos’ de ração – que me custou a bagatela de R$ 167,00 – sob o braço, não ouso a discordar de tais dados. E ainda mais: a expectativa da entidade é de que o setor cresça “somente” 8% neste ano.  


A economia é um simples reflexo da sociedade. Não é de hoje que colocamos os animais no mesmo patamar que as pessoas. Até acima. Muitos preferem doar dinheiro para ajudar no tratamento de um cão a auxiliar uma criança com fome; “batizamos” nosso pets cada vez mais com, antes, nomes “de humanos” (mea culpa: eu tenho uma gata chamada Sofia).


Antes que as entidades protetoras dos animais “soltem os cachorros” para cima de mim, sou filho de ativista e também defensor da causa. Só queria encontrar o momento exato em que essa inversão humano/pet ocorreu. Será que, diante de tantos “cocôs” que espalhamos pela história (e sem ninguém para recolher com uma sacolinha), perdemos a esperança em nós mesmos? Será que chegamos à conclusão de que a humanidade errou de vez o caminho e estamos preparando um planeta melhor, mas para nossos “filhos pets”?


“A compaixão para com os animais é uma das mais nobres virtudes da natureza humana”, disse Charles Darwin (1809-1882). Talvez o naturalista, lá no século XIX, já vislumbrava um próximo passo da sua teoria da evolução. O britânico talvez já soubesse que deveríamos ter compaixão com os animais para que, no futuro, eles também tivessem conosco. Afinal, do jeito que a carruagem (ou carrocinha) anda, não é muita maluquice imaginar, em breve, estarmos vivendo dentro de uma releitura da obra científica Planeta dos Macacos. Neste caso, Planeta dos Cachorros. Ou dos Gatos. Sorte que eu cuido muito bem da Sofia.   


O autor é editor do JC, jornalista responsável da TV USP Bauru e especialista em Linguagem, Cultura e Mídia

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