Cultura

Antigo prédio da Rede Ferroviária Federal recebe movimento cultural

Nélson Gonçalves
| Tempo de leitura: 13 min

Malavolta Jr.
“Um bom lugar se constrói com humildade”, estampa o painel deslocado para perto de uma composição, enquanto o chão da estação era lavado, nesta semana 
João Rosan
Nesse sábado, foi inaugurada a Casa da Cultura Hip Hop na estação; na foto, Paulo Henrique, o Polar, dança break

O portal da Estação Ferroviária de Bauru, em frente à Praça Machado de Mello, vai voltar a ranger suas dobradiças mas, desta vez, para tirar a ‘cara de espanto’ e abandono e difundir ação cultural em parte de sua estrutura histórica. Adquirido pelo governo Rodrigo Agostinho por pouco mais de R$ 6 milhões, o prédio da estação central foi “renegado” por setores da administração.

Inicialmente, as dezenas de salas da estação iriam receber áreas das secretarias de Saúde e Educação. Mas o projeto executivo para dimensionar o custo da reforma demorou. Pronto, o estudo apontou que seriam necessárias intervenções em toda sua instalação hidráulica e elétrica, além da necessidade de adequações em escoamento de água, acessibilidade, telhado, troca de elevadores e dezenas de vidraças e vitrais.  

A parte física original de alvenaria, que contempla pilares reforçados e paredes de dimensões avantajadas, está intacta. O piso, a maior parte de tacos ainda do período áureo da ferrovia, pede retoques em algumas salas e ajustes mais elaborados em outras. Mas, grosso modo, não existem grandes “obstáculos estruturais” que impeçam atividades culturais em salas de tamanho generoso. Para inúmeros grupos com trabalhos em diferentes nichos culturais, não há “nada de assombroso na estação”. “O que assombra é a falta de vontade em liberar um prédio histórico que pode e deve ser ocupado por ações culturais em pelo menos algumas de suas salas”, arrisca um integrante do governo que, por razões óbvias, pede anonimato.

Aliás, bastou movimentos culturais populares decidirem “tomar” várias salas que reações de ciúme começaram a “exalar” em corredores do Palácio das Cerejeiras, conta a fonte. “Há resistência corporativa entre segmentos de servidores para mudar até de sala. Tem lugar que servidor briga até por biombo. Setores da Educação e Saúde fizeram ‘cara feia’ quando foi anunciado que iriam mudar para a estação”, acrescenta o homem do governo.  

No gabinete, fala-se que a “ocupação de salas na estação ferroviária parece a história do ‘mito desconhecido’. Muitos nem sabem a real situação do prédio, mas não hesitam em se posicionar contra ir pra lá. E isso acontece desde a compra do prédio, em 2010. “Por sorte do corporativismo de parte do funcionalismo, o governo não teve dinheiro para realizar a reforma”, completa, com humor, o interlocutor do governo.

A ociosidade ganhou a companhia de muita poeira, lixo, insetos e pássaros. Mas a estação resiste ao tempo e à teimosia do governo em ampliar gastos com aluguéis enquanto as enormes e dezenas de salas do prédio histórico continuam desocupadas. Agora, tinta, voluntarismo e uma dose de cultura tomam ares perto dos trilhos.

Impulso veio de reação ao Mercadão  

Sem recursos para realizar o projeto integral de reforma para o prédio de dezenas de salas e dois pisos, a administração municipal assiste com ressalvas à iniciativa do movimento cultural em direção aos trilhos centrais. Mas o “estopim” para que entidades decidissem ir para lá veio, em certa dose, de reação de segmentos culturais à proposta de instalação de Mercadão na Gare da estação.

 
A ideia de se livrar de aluguéis, ou a oportunidade gerada por salas maiores para manter projetos já era discutida entre grupos. Mas ela ganhou impulso definitivo depois que a Secretaria Municipal de Agricultura (Sagra) anunciou interesse em ocupar a área do antigo setor de embarque e desembarque com um Mercadão Municipal a partir de projeto junto ao Governo Federal para recuperar este setor.

O processo para obtenção de R$ 400 mil para aplicação na proposta foi encaminhado ao Governo Federal por iniciativa do secretário de Agricultura, Chico Maia. Ativistas da área cultural, imediatamente, resolveram, então, deixar de lado roteiros, livros, telas e nanquins para partir para a “ocupação”. O secretário não vê conflito entre os dois projetos. Mas, na dúvida, os ativistas “acamparam” em salas do térreo e primeiro piso.  

Nesta última semana, enquanto as paredes espessas da velha estação ganhavam cores diversas no térreo e no primeiro piso, poeira, lixo, teias de aranha e vidros quebrados começaram a ser removidos. Voluntários de grupos de movimentos culturais da periferia, como o hip hop, se juntaram a grafiteiros, estudantes e detentos conveniados do CPP-3 (antigo IPA) para lavar cômodos e “espantar mau agouro”.

Em dois dias, telas de grafite anunciavam a premissa de unidade pela multiplicação de espaços multiculturais. Painéis passaram a deixar evidente que o cenário de desocupação estava dando lugar, depois de anos, à dança, programação de exposição afro, livros, teatro, entre outros.

Nesta etapa, a Secretaria Municipal de Cultura prioriza a distribuição de salas para o “miolo” do primeiro piso e o térreo. O saguão principal, que dava guarida às bilheterias no passado e faz ligação à rua, em frente à Praça Machado de Mello, já recebe exposições neste mês de agosto.

Muita sujeira e material inservível ainda está sendo retirada, desde a semana passada, do local. E, ainda assim, o lixo acumulado por anos vem de apenas algumas salas. Para contornar questões como acessibilidade e racionalização do uso, a equipe da Secretaria de Cultura que coordena as transferências direcionou a destinação de salas para o “miolo” do prédio no primeiro piso, além do térreo.

Orlando Alves, do Museu Ferroviário e que está no prédio contíguo à estação, cita que a Cultura está investindo na recuperação de pontos essenciais. “O telhado precisou de intervenção e consertamos. A limpeza está sendo realizada primeiro nas salas escolhidas e priorizamos o recebimento das entidades e grupos já organizados, com documentação e atividades em dia”, diz.

Para que os programas funcionem por lá, é necessário aguardar itens como as instalações hidráulica e elétrica. “Estamos realizando a instalação elétrica prioritária, do que será utilizado. A pintura geral do prédio nos espaços destinados também está sendo feita. Os banheiros foram alocados todos para uso no térreo, em oito unidades e estamos consertando a calha no telhado”, acrescenta Alves.

Antes disso, a pasta realizou a catalogação de móveis que permaneceram por lá. São inúmeros cofres em ferro maciço, por exemplo. “Nem tem como retirar isso das salas porque são muitos e pesados. São móveis que vão acabar compondo a decoração natural dos ambientes. Catalogamos o que vai para o Museu Ferroviário e restos de móveis ou lixo estão sendo retirados”, conta.

Voluntários de alguns dos grupos que vão atuar nos espaços ajudam em limpeza e pintura geral. Quatro detentos que trabalham em convênio com a administração trabalham no local. “A maior parte do prédio continuará fechada, sem acesso, porque são dezenas de salas e salões enormes aqui. Vamos bloquear esses acessos para evitar qualquer problema”, conta Alves.  

Histórico

A Estação Ferroviária da Estrada de Ferro Noroeste foi adquirida durante a primeira gestão do prefeito Rodrigo Agostinho por R$ 6,3 milhões à época. O documento de posse foi emitido em março de 2010.

O prefeito contratou o projeto executivo de reforma do prédio. Mas ele permanece sem execução põe falta de recursos. O relógio antigo, que compunha a paisagem arquitetônica da fachada da estação inaugurada em 1905, foi restaurado, mas só será reinstalado quando forem concluídas as intervenções de ocupação desta etapa, segundo a assessoria de imprensa da prefeitura.

Portaria serve ao vício e a andarilhos

Reabertura da portaria principal da estação promete eliminar ponto de encontro de usuários de drogas e álcool no Centro

A longa inatividade do prédio fez da portaria da estação ferroviária, no Centro, um ponto de encontro para viciados em drogas e álcool e andarilhos. Uma parte dos frequentadores é conhecida do cadastro dos programas de assistência social de Bauru. Alguns estão em casas de repouso, outros mudaram o paradeiro. Mas outros voltaram a “acampar” no portal durante o dia, em razão da reincidência no vício.

Entretanto, outros rejeitam opções de ajuda oferecidas pela Secretaria Municipal do Bem-Estar Social (Sebes). “Alguns frequentadores do Centro preferem se hospedar como mensalistas nos hotéis das proximidades. Com renda como aposentados, estes dizem que não abrem mão da liberdade. Querem poder ir e vir e ficam o dia todo por lá, perto dos hotéis, onde só voltam para dormir”, conta a secretária Darlene Tendolo.

Segundo ela, a pasta conseguiu reduzir a “clientela”, mas muitos retornam. “Levamos alguns para casas de repouso, pra outros foram alugadas casas porque estavam mais organizados. Outros buscamos retomar o vínculo com a família. Mas eles voltam. E voltam os que podem pagar para ‘morar’ no hotel”, cita.

Para a secretária, a reabertura da portaria com a ocupação do saguão principal da estação, onde ficavam as bilheterias, com exposições permanentes, vai levar os andarilhos a peregrinarem para outros cantos. Na estação, os “moradores” ocupam a portaria com colchões e cobertores.

É o que faz Aparecido de Jesus. Magérrimo, com manchas por todo o braço e mãos, ele diz que foi abandonado. Com a aposentadoria, paga R$ 600,00 para dormir como mensalista no Hotel Cariani, o mais antigo da área de ferrovia em atividade, no Centro, segundo o que informa o memorialista Luciano Dias Pires.

Nelson Gonçalves
Doente, Aparecido Jesus usa a frente da estação para descansar em um colchão durante o dia

“Eu recebo um salário mínimo e pago R$ 600,00 para dormir. Estou com dor no estômago, peguei varejeira e fiquei internado. Eu mexia com a terra, no campo. Estou em Bauru há dois meses mas sou de Araraquara”, disse Jesus.

A frente da portaria da estação é bastante movimentada, sobretudo por paradas e partidas de ônibus coletivos. “Eles ficam aqui o dia todo. O povo passa e dá comida para eles e eles vão ficando. Mas, de noite, esses não ficam aqui porque tem usuários de droga e roubo”, disse um motorista.

Um dos “moradores” é Adan Carlos, apresentado por um andarilho habitual da praça Machado de Mello como um dos “donos do Negão”, o nome dado ao cachorro que acompanha a turma que permanece na portaria da estação durante do dia.

“Estou aqui pela droga. Já internei cinco vezes e não consegui parar. Fumava muito crack. Agora só tomo pinga. Nem aguento fumar mais e faço crochê para vender”, diz o homem de 27 anos. Gilberto Arantes, vulgo Pixote, tomava pinga no mesmo frasco que Adan enquanto falava com o JC.

No ponto de circular mais perto do portal, Ana Carolina Oliveira, que trabalha como conferencista no Centro há apenas um mês, comentou que não tem medo de andar por lá. “Eu não tenho medo não. Sempre tem muita gente por perto, o posto policial na praça e muitos passageiros”, contou. Apesar disso, ela ocupava sozinha o primeiro ponto. “O pessoal prefere ficar no segundo ponto de coletivos, um pouco mais longe aqui da portaria da estação”, emendou.

Quem já está indo para o prédio?

Os rebocos de algumas das salas do primeiro piso do prédio da estação já ganharam o “colorido”. Integrantes do hip hop pintaram quatro salas. Cada uma será destinada para um professor. Neste fim de semana, inclusive, foi inaugurada a Casa da Cultura Hip Hop, com diversas atrações.

“Uma sala terá aulas de break, em outra vamos montar um estúdio audiovisual, em outra vamos iniciar cursinho pré-vestibular para carentes. Trouxemos tinta, vamos trabalhar com grafite também e estamos só esperando a iluminação interna para começar a desenvolver os projetos”, conta Edson Moraes Timbá, imtegrante do grupo e morador da Vila Independência.

Bernardo Paixão e Geraldo Martins Filho estão empolgados e já apresentaram a programação deste segundo semestre da Associação Cultural de Tradição Afro-Brasileira de Bauru (Actabb). “Estamos limpando os espaços, eu e o Geraldo colocamos a mão na massa para ajustar o piso e estamos atrás de tinta para pintar as salas. Quem quiser doar tinta é só deixar na estação para a Actabb. Enquanto isso, estamos com a programação de atividades em curso”, diz.

Para o dia 5 de setembro, a Actabb vai realizar o primeiro sambalanço “Sacundin Sacunden” na estação. “Vamos ter sambalanço pelo menos uma vez por mês aqui. A estação é a integração histórica e de diferentes manifestações culturais. Vamos ter banda de samba rock, coreografia e show de dança em samba rock, DJ e samba antigo aqui”, complementa.

A associação também programou eventos para 3 de outubro, 7 e 20 de novembro. Formado em direito, Bernardo Paixão promete lançar programa de orientação em regularização de entidades e associações de moradores. “Muitos não têm diretoria formada, não têm regimento, ata constitutiva. Vamos dar capacitação para esse pessoal e integrar o trabalho aqui”, lança.

Da Secretaria da Cultura, Orlando Alves conta que o grupo de índios terenas (Iraci), a Sociedade Amigos da Cultura (Sac) e a Associação de Teatro de Bauru (ATB) também entraram na distribuição de salas. A maioria no térreo. “Até por uma questão de acessibilidade, o térreo, no mesmo nível da plataforma da Gare, terá os espaços mais ocupados nessa etapa”, conta Alves.

A Associação Bauruense de Letras (ABL) está cuidando da separação de mobiliário e de distribuição de acervos por cinco salas, no térreo, local que também, conforme já mencionado, se encontra instalado o grupo da Actabb.

O instrutor de teatro Fábio Valério fez mais um vai e vem, que agora virou rotina, no prédio na última terça-feira. “A Divisão de Ensino de Artes da secretaria também vem pra cá. Vamos ocupar o piso 1 com a Escola Municipal de Teatro, oficinas livres trimestrais, workshops e cursos”, menciona.

Atualmente, a divisão atende 600 alunos, de nove anos até a terceira idade. “Vamos ter condições de triplicar os atendidos, porque temos espaço, com variação de salas e horários aqui”, comemora Valério.

Malavolta Jr.
O ferroviário Odécio Dias está feliz com a “reabertura” da estação e a ocupação do prédio com projetos culturais

FELICIDADE

Enquanto os voluntários dos movimentos culturais lavavam o piso, Odécio Dias olhava, com orgulho e saudade, para uma composição da máquina que ajudou a construir e manter por anos. “Entrei em 1948 como aprendiz e trabalhei por 34 anos na Noroeste do Brasil. Eu trabalhava para forjar as peças que ocupam os trens a vapor. Estou muito feliz que aqui vai deixar de ficar abandonado. E vou vir aqui para falar como funciona a máquina e como trabalhávamos”, fala.

Acervo da Academia

Depois de anos, a Academia Bauruense de Letras (ABL) conseguiu ter atendida a demanda por um espaço para organizar melhor seus acervos e ações. Sob a presidência de Joaquim Simões Filho, a entidade constituiu uma comissão para a instalação na sede própria, composta por Josmar da Paixão, Mariluci Genovez, Orminda Camargo, Ana Maria Machado, Maria Cristina Carvalho e Josefina Fraga.

“A estação está destinada à cultura bauruense e seu espaço irá abrigar não só a ABL que, há 22 anos, vem reivindicando um espaço na cidade bem como outros grupos da cultura local. São, ao todo, cinco salas de tamanhos diferentes, sendo uma de estudos, outra de biblioteca com toda sua produção literária e livros em geral para o uso do público, outra sala para palestras e reuniões e outras menores para arquivo e documentação, além da sala dos patronos com acervo”, conta a comissão.

O espaço possibilitará que a ABL faça suas reuniões mensais, lançamentos de livros dos acadêmicos e demais escritores, promoção de saraus, concursos e eventos culturais, com integração com a comunidade, garante a comissão.

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