Estimular, desde a infância, a solidariedade e o convívio com as diferenças para tornar o mundo um lugar melhor. É esta a perspectiva que a professora alemã Ute Craemer difunde há 40 anos, inspirada em um trabalho que realizou para integrar crianças e pré-adolescentes de realidades socioeconômicas distintas, oriundos de escolas públicas e particulares.
A experiência adquirida pelos alunos é o que Ute chama de “currículo social”, conceito que ela trouxe à tona em palestra ministrada ontem no Serviço Social do Comércio (Sesc) de Bauru. “As crianças da escola pública, vindas de famílias com condições mais precárias, descobriam um mundo novo, em que podiam ser crianças em tempo integral. Já as da escola privada perceberam que poderiam doar muito de si, ao mesmo tempo em que também aprendiam. Ambas puderam exercitar suas habilidades sociais diante de um mundo novo, com resultados visíveis para a autoestima”, descreve a professora.
A experiência foi realizada pela primeira vez em 1975, quando Ute lecionava em uma escola de ensino fundamental da Capital, que adotava a pedagogia Waldorf, caracterizada por integrar o desenvolvimento físico, espiritual, intelectual e artístico dos estudantes. Ao realizar um trabalho social em uma favela, decidiu aproximar os dois universos, inicialmente com encontros em sua própria residência.
“O que me surpreendeu é que não houve preconceito, todas se tratavam como iguais e continuaram agindo como crianças, independentemente da classe social. É claro que havia conflitos, mas eram normais, típicos da convivência entre seres humanos”, pontua.
A primeira experiência envolveu jovens com 13 anos e durou cerca de doze meses. O projeto, contudo, tomou proporções maiores, quando Ute decidiu fundar a Associação Comunitária Monte Azul, que hoje desenvolve projetos de geração de renda, música, esportes, além de contar até com ambulatórios médico e odontológico.
“O nosso objetivo é cuidar da criança e do adolescente para que o mundo seja mais solidário, mais humano, quando eles se tornarem adultos”, pontua. Com esta meta, Ute segue difundindo o conceito de “currículo social”, estimulando escolas e entidades assistenciais a promover esta interação entre universos socioeconômicos diferentes para criar, propositadamente, um ambiente menos competitivo, tão típico dos dias atuais, e mais favorável à prática da solidariedade.
“E estes encontros podem ocorrer em qualquer lugar: em um abrigo de idosos, em um hospital, em uma favela, em um centro comunitário, em uma praça. O ideal é que seja sempre fora da escola para não deixar nenhum dos dois lados em sua zona de conforto”, completa.
Aliança pela Infância
Ute foi responsável por trazer para o Brasil, em 2001, o movimento internacional Aliança pela Infância, que luta pelo direito de todas as crianças “serem crianças em sua plenitude”, mesmo diante das pressões do mundo contemporâneo. Ontem, em Bauru, ela anunciou oficialmente o lançamento da iniciativa na cidade, que será coordenada pela Associação Comunitária Angico do Cerrado, que atende a comunidade do Jardim Europa.