Política

Ideologia, eu quero uma para viver!

Thiago Navarro
| Tempo de leitura: 7 min

João Rosan
Professor de ciência política na Unesp, Maximiliano Martin Vicente cita o descrédito dos jovens com a política atual

Tradicionalmente liderados por seus membros mais antigos, os partidos políticos também dependem dos jovens para ter uma militância forte e renovada. Em um momento em que o modelo político atual é colocado em xeque, os partidos buscam se reinventar e trazer os jovens, em uma faixa entre os 16 e 30/35 anos.

A situação que ocorre em âmbito nacional é verificada também em Bauru, que tem seus principais partidos renovando as chamadas ‘Juventudes’, e procurando consolidar nomes que tenham força para futuras disputas eleitorais. Uma geração jovem, que mais do que novos nomes, precisará reconduzir suas siglas a um caminho ideológico capaz de atrair pessoas dessa faixa etária.

Para Maximiliano Martin Vicente, professor de ciência política do Departamento de Ciências Humanas da Faculdade de Arquitetura, Artes e Comunicação (Faac), da Unesp-Bauru, os jovens em geral têm restrições ao sistema político vigente no Brasil.

“Eles não acreditam no sistema atual, e não se sentem representados. Como alternativa, se manifestam em redes sociais, na internet, e mais recentemente indo às ruas, em manifestações de diferentes linhas ideológicas”, argumenta o docente.

Interação
Vicente acredita, ainda, que falta interação das lideranças mais antigas das legendas com esse novo público. “Isso não é só no Brasil, no mundo todo os partidos costumam abrir pouco espaço para quem é de fora. De qualquer forma, o processo para entrar na vida política é o mesmo, ou seja, através de associações, sindicatos, e dos próprios partidos, que tem como característica serem lentos, enquanto o jovem quer mudanças rápidas.”

“A democracia implica em partidos políticos. Há sim uma negação aos partidos como resposta a um descontentamento dos jovens com a política atual, mas para mudar a política, eles terão que estar em um partido, se quiserem participar diretamente da vida pública”, completa.

Sobre os temas que mais atraem os jovens, o professor da Unesp aponta educação e, em seguida, a segurança pública. “São assuntos mais presentes na vida da população jovem, que também vê nessas áreas uma necessidade de melhoria até por questões individuais. Ele precisa de um bom ensino para se formar e ter condições de se empregar bem. São temas que sensibilizam mais os jovens do que a saúde, por exemplo, por estarem mais próximos da realidade deles.”

Em Bauru, boa parte das legendas já constituiu suas militâncias jovens de maneira organizada. O JC conversou com algumas lideranças e membros desses setores de alguns dos partidos que estão estabelecidos e com vida orgânica na cidade, nas mais variadas vertentes do espectro ideológico.

 

Samantha Ciuffa

Gabriel Machado, 23 anos (DEM)

O Democratas (DEM) é hoje um dos partidos que fazem oposição ao governo de Dilma Rousseff, e coloca-se à direita no espectro ideológico. Em Bauru, o DEM não conseguiu fazer nenhum vereador na última eleição, em 2012, cenário que tentará ser revertido no próximo ano.

Nos últimos anos, houve novas adesões à ala jovem do partido. Um dos membros é Gabriel Moutinho Machado Loureiro, 23 anos, que explica ter aumentado o número de simpatizantes nos últimos meses. “Aumentou com as mobilizações na rua. Somos um partido de direita liberal, não é aquela direita conservadora, mas sim o modelo austríaco, que é o libertário, então quem vem aderir já possui esse perfil mais liberal. Dentro dessa linha, os objetivos são a diminuição do Estado, que é conservador e interfere na economia. O objetivo é que o cidadão tenha mais liberdade, com menos intervenção do Estado, algo que geralmente atrapalha”, frisa.

Para conseguir mais adeptos, Gabriel Machado aposta no perfil ideológico. “A gente acredita nessa ideologia, e sabemos que muita gente compartilha dessa mesma visão, de um Estado menos interventor. Hoje o País perde muito com o tamanho do governo. O sonho de muita gente é passar em um concurso e ter estabilidade, por exemplo, sendo que enquanto isso o País está perdendo gente qualificada e que poderia estar sendo produtiva em outros setores da economia”, lembra.

 

Alex Mita

Kaio Ruiz, 19 anos (PDT)

O PDT tem o estudante Kaio Ruiz, 19 anos, como líder da Juventude na cidade. O partido é aliado de Dilma em âmbito federal - mas há possibilidade de ruptura em breve - e também compõe a base de sustentação do governo Rodrigo Agostinho em Bauru, com um vereador (Fabiano Mariano).

Ruiz aponta quais são os princípios ideológicos que norteiam a Juventude pedetista. “Não é uma linha marxista, mas sim o que a gente chama de socialismo moreno, trabalhismo. Somos contra a privatização e a favor do ensino em tempo integral, mas um ensino integral público para todos, e não para uma minoria, como faz o governo de São Paulo com as Etecs, que só faz quem passa na prova”, diz.

O ex-governador do Rio de Janeiro Leonel Brizola é o principal ícone de Ruiz, que inclusive carrega na lapela da camisa uma pequena imagem do político que morreu em 2004. “Ele fez muito pela educação no Rio, pena que outros governos não deram sequência depois. Na parte econômica, o trabalhismo prega menos impostos aos pequenos e médios empreendedores, que empregam a maioria das pessoas. Para chegar aos mais jovens, a gente aposta na força da internet e em trabalhos com os grêmios estudantis”, finaliza.


 

Divulgação

Lucas Basso, 21 anos (PSB)

O PSB foi a terceira força da última eleição presidencial, primeiro com Eduardo Campos, que morreu em meio a campanha em acidente aéreo, e depois com Marina Silva. A legenda passa por momento de reestruturação, já que Campos era o principal líder nacional. Em Bauru, o PSB está representado na Câmara pelo vereador Paulo Eduardo de Souza.

A Juventude do PSB local é liderada por Lucas Faccin Basso, 21 anos, estudante de história da USC. “O PSB busca ter uma nova cara em Bauru. A nossa ideologia é de esquerda, acreditando que o Estado deve promover os direitos básicos das pessoas, como saúde e educação, procurando uma sociedade mais justa. A política partidária brasileira está em descrédito, mas há movimentos que tentam resgatar a militância, como os coletivos não partidários”, diz.

Para ele, a principal estratégia é massificar a educação política. “O ensino médio não dá conta de fazer sozinho uma educação política, então a universidade deve assumir esse papel, promovendo o debate também com a educação básica. Eu faço palestras em escolas, sem conotação partidária, mostrando como funciona o sistema político do Brasil e a partir daí percebemos que o jovem tem sim interesse político, mas precisa conhecer a estrutura do sistema atual.”

O jovem tem sede de saber, e para ter uma ideologia, antes ele precisa conhecer como funciona a política”, acrescenta.

 

Divulgação

Tarcílio Loureiro, 27 anos (PSOL)

O Partido Socialismo e Liberdade (PSOL) consolidou-se, nas últimas eleições nacionais, como uma importante vertente da esquerda no Brasil. Em Bauru, a legenda ainda procura fazer seu primeiro vereador, mas chama a atenção por ter entre seus filiados diversos integrantes de movimentos sociais.

A Juventude do PSOL bauruense é coordenada pelo professor de filosofia Tarcílio Martins Loureiro da Silva, 27 anos, e que explica as diretrizes ideológicas da sigla. “O PSOL é um partido socialista, e que prega portanto esse rompimento com a lógica capitalista estabelecida. Quanto à participação dos jovens na política, o quadro atual é de rejeição aos partidos, pois há uma crise institucional, o jovem acha que todo político é ladrão, então há essa desconfiança. Para você chegar a um cargo eletivo, você tem que ser ‘patrocinado’, e nós pregamos uma política que não necessariamente tenha como objetivo obter um cargo, mas pensar no coletivo, nos movimentos sociais”, comenta.

Para atrair a juventude, Tarcílio aposta na própria indignação com o sistema estabelecido. “O jovem não está feliz. A educação está precarizada, cada vez com mais cortes, então isso é um motivo para o jovem participar e se envolver na vida pública. De maneira geral, o jovem não costuma ter uma ideologia definida, até por conta do tratamento que a política vem recebendo”, acredita.

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