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Acelerando de moto há 55 anos

Nélson Gonçalves
| Tempo de leitura: 7 min

Ele é paulistano e aos 16 anos comprou uma moto escondido da mãe. De lá para cá, nunca mais se separou de um veículo de duas rodas. Estradeiro, Luiz Severo de Andrada Coelho veio a Bauru, aliás, também em uma motocicleta, direto de São Paulo, mesmo em um desses dias chuvosos.

“Eu só ando de moto. Sempre! Tenho um carrinho que quase nunca uso. Aproveitei uma de minhas muitas visitas a Bauru e vim pela Castelo Branco ‘beijando’ o vento. Minha mãe sempre foi muito autoritária e brigava muito comigo. Mas eu também era muito peralta. Ela chegou a ligar para o vendedor para cancelar a compra da moto. Eu fiquei muito aborrecido e com 17 anos eu fui embora de casa por incompatibilidade de gênio. Eu fiquei com a moto, mas fui embora de casa”, conta.

Mas isso aconteceu há 55 anos, no tempo em que moto não tinha acessório como espelho. “Eu sempre gostei de motos antigas. Tive uma Ducatti há 50 anos e gostei muito. E daí apareceram Honda e Yamaha, que na época eram de cair o queixo, com cromados e tudo. Nos idos da década de 60, os japoneses inventaram o fio colorido e acabou o problema de cada lado para identificar e trocar o pisca-pisca. Vazava óleo por tudo nas máquinas da época. Eu punha a moto na sala e minha mãe implicava muito. Mesmo com o jornal manchava o chão. E aí não teve jeito, tive que me separar da mãe para ficar com a moto”, reforça.

O “casamento” com a moto passou por gerações. “Nunca mais larguei de uma moto. O motor dois tempos era bem mais simples pra mexer, mas durava menos. Era uma brincadeira. Retificava na estrada, superaquecia. Parecia mexer em um liquidificador, mas era uma maravilha saber mexer e arrumar na estrada”, lembra.

Para Luiz Coelho, o sujeito nasce com o estilo, o perfil para pilotar moto. “Tem gente que pode até ter moto, mas não tem o estilo. Não adianta. Meu irmão gostava de moto, mas era bonachão, sai na estrada e esquece tudo, não presta atenção. Tem de estar ligado o tempo todo em cima de uma moto. Eu nem pisco em cima de uma moto”.

Para provocar, com humor, o motociclista diz que quem gosta de Harley Davidson não é do ramo. “Eles não são motociclistas natos, são apreciadores. Eles customizam, mas não colocam a moto na chuva, ficam cheios de frescura. Eu entendo, é uma moto diferente. Mas a Harley vende um produto que esquece do piloto. Ela vende a moto limpa e depois o sujeito gasta o dobro para equipar como manda o figurino do fabricante, com um monte de penduricalho. Respeito, mas não é o estilo de quem gosta de rodar mesmo.”

Luiz diz que adquiriu, neste momento, seu sonho de consumo. “Eu fui passando por vários modelos e motorizações. Até porque são mais de 50 anos pilotando. Agora eu estou com uma espetacularmente grande. Um carro tem quando muito 2.0. A minha moto é 2.300 cilindradas. É uma Triumph, uma tipicamente estradeira, com pneu traseiro largo e um torque maravilhoso. Ela esquenta demais na cidade, com cilindros em linha. E o motor fica no meio das pernas e para andar na cidade cozinha o corpo. Na estrada ela resolve isso com refrigeração. A velocidade vai até na coragem do piloto. Eu nunca passei de 200 km/h. Mas ela vai”, aponta, com sorriso largo no rosto.          

Há alguns anos, Luiz Coelho comparece a vários encontros dos fabricantes de motocicletas no País, de diferentes marcas. “Meu filho, que por acaso é meu filho, mas meu melhor amigo, escreve matérias para esse segmento. E como eu gosto muito e aprendi muito, colaboro com observações, histórias e pesquisas. E com isso, sempre que posso, eu vou a vários eventos. E adoro”, esclarece.   

O gosto do filho pelas motos tem origem. “Eu o levava desde menino no tanque mesmo para muitos lugares. Eu saía por aí, sem destino, com ele. E passeamos sempre muito. Dessa parceria surgiu uma grande amizade e agora eu dou suporte pra ele nessa área. Eu arranjo um pretexto e vou a muitos desses eventos. Ele tem a cobertura da revista para qual ele trabalha. E eu vou nesses encontros. Fui para Dublin, na Irlanda, por exemplo, pagando 30 dólares a mais com a inclusão de mais uma cama no quarto. Aí fica bem barato. E se não tem jeito, eu dou um jeito e vou”, garante.      

Certa vez, em uma viagem de Bertioga para o Rio de Janeiro, quando ainda nem havia estrada... “Havia pinguelas, trilhas em alguns trechos. Eu passava por pontes bem ruins. E nesse caminho furou o pneu da frente e não tinha nem como ficar desesperado, porque era no meio do mato mesmo. Não tinha levado nem o remendo, que depois passou a ser muito usado. Toda roda era raiada e os furinhos não permitiam sem câmara. Tirei a câmara e coloquei capim seco, palha, fui esticando e enchendo e ficou durinho. Eu o coloquei no lugar e consegui ir até um borracheiro algum tempo depois”, lembra.


Os motoclubes

Em Bauru e região existem diversos grupos em atividade. Os motoclubes contam com associados cativos e programação permanente, com encontros, passeios e participações em feiras temáticas e exposições. Todos têm comunidades em redes sociais, sobretudo o facebook.

O Moto Clube Cães do Asfalto atende os internaturas pelo www.caesdoasfalto.com.br.

O Lobo Moto Clube Bauru tem a comunidade com o mesmo nome no facebook e também pode ser contatado pelo https://www.facebook.com/lobosmcbauru. Na rede você também localiza o https://www.facebook.com/canibais.mc

Na Internet muitos se encontram em ‘tribos amigas’ no segmento, como os comancheros (https://oscomancherosmc.com.br/), que reúne famílias que gostam de viver a emoção em duas rodas e confraternizar.

Na rede você ainda encontra os Bodes do Asfalto de Bauru (https://bodesdoasfaltobauru.blogspot.com.br/) e também o Ação Medieval (https://acomedievalmotoclube.blogspot.com.br/p/moto-clubes.html).

Mas existem inúmeros outros, inclusive com nomes com escritas parecidas. Entre os fáceis de locailizar também estão os Knibais do Asfalto, Sossegados Moto Clube, Tribo Moto Clube, Os Patrões Moto Grupo, Os Canalhas Moto Clube e Moto Clube Lafayette.


Aprendiz da vida

A briga com a mãe por causa do amor pela motocicleta custou a Luiz ter de trabalhar logo cedo. Contou com a ajuda de um amigo, em um escritório. “Eu não sabia nada e ele me ensinou a cuidar de uns papéis, ir a banco, fazer entregas. Até que apareceu um serviço na Bolsa de Valores e, com o tempo, eu fui vendo como era aquele mercado de peixe de ações. E aprendi observando muito. Lá entrei e fiquei por anos. De lá, conheci um pessoal do Café Pelé e fui ser representante da marca por 20 anos”, relata.

Da experiência com a venda de café, Luiz Coelho guardou sabedorias. “Acabei aprendendo muito também de café, além de motos. O café brasileiro é bom, mas poderia ser muito melhor. O colombiano, por exemplo, é melhor que o nosso simplesmente, famoso e caro. E isso porque eles usam no manejo, única e exclusivamente, não deixar cair o grão no chão para catar depois. O colombiano cata antes e põe em um tanque e lá trata o grão e fica espetacular”, opina.

Entre as grandes emoções, Luiz Coelho cita participar da cobertura da Corrida de Man, na Irlanda, uma competição maluca que existe há mais de um século. Em todo evento morre um no percurso. “É uma corrida totalmente insana, maluca. Eles fecham a Ilha de Man durante uma semana. É a mesma proporção do que é o Carnaval para o Rio de Janeiro. O ano retrasado teve o primeiro brasileiro a disputar essa corrida, meu filho foi para cobrir e eu fui de bicão, pra variar. Morrem dois por corrida, em média. A corrida tem 60 km em estrada em volta da ilha. E no percurso tem árvore, buracos, lombadas, valetas, guia, calçada, poste. Quando eu fui, no treino um japonês já morreu ao bater de frente em uma árvore”, conta.

Luiz não deixou escapar: juntou quatro pessoas e convenceu um taxista a fazer o percurso da corrida, depois do treino. “Demos a volta, dividindo o custo com os outros que eu arrumei lá para pagar o táxi. Uma aventura, mas emocionante conhecer a corrida. Uma aventura como quando eu pegava meu filho e colocava no tanque, com uma barraca e bolsa na garupa e saía por aí, no mundo. É preciso viver a vida todo dia. Eu faço isso há mais de 50 anos com uma moto”, finaliza.     

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