| João Rosan |
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| Tímido, Juraci Xavier dedica seis horas diárias aos livros, em preparação para a 2.ª fase da Ordem dos Advogados do Brasil |
Driblar as nuances da vida não foi fácil para Juraci Xavier. Como milhões de brasileiros, começou a trabalhar desde menino. Aos 9 anos foi aprendiz na Estrada de Ferro Noroeste do Brasil (NOB). Por lá fincou raízes profissionais, se aposentando como rádio telegrafista depois de 36 anos de carreira. No descanso, se incomodou e, aos 72 anos, resolveu cursar Direito. Concluiu a graduação. Mas a energia da vida lhe soprava pedindo mais. Xavier acaba de ‘passar’ na primeira fase do exame da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) e está em maratona de estudos para, em setembro, fazer a segunda fase.
Mas e se Juraci não for bem na prova marcada para o próximo dia 13 de setembro? Tudo certo! Nada errado. Sua meta, se isso eventualmente acontecer, só vai ser “renovada” um pouco mais. Preocupação até desnecessária para quem traçou como objetivo de trajetória viver, construir um sonho e executar um plano de ação de cada vez.
Como diz ‘seu Juraci’. “O mundo gira”. Com “G”. Tal qual o batismo dos filhos de seu casamento com Maria José Cardia Xavier, conhecida como Zezé: Gilberto, Gisele e Gilson. Bauruense, seu Dora, seu apelido, fez curso técnico no Liceu Noroeste e, depois o colegial no Colégio Guedes de Azevedo. “Mas não deu para continuar mais eu isso na época. Eu tinha de trabalhar. Comecei com 9 anos como “gratuito” mensageiro na Noroeste. Como muitos do meu tempo. Não ganhava, mas aprendia. Fui rádio telegrafista e atuei assim pro 36 anos”, conta.
Depois de aposentar, começou a trabalhar na empresa do filho Gilberto. “Eu tinha relatório para fazer e comecei a ficar intrigado com alguns termos e informações que não conhecia. Minha vida foi a rádio telegrafia. Eu parei de novo e fiquei em casa descansando. Mas algo mexia comigo. Até que engordei uns 20 quilos por não fazer nada e frequentar o Bar do Tatu todo dia. Eram cervejas diárias em minha companhia. Só podia dar nisso. Resolvi chacoalhar de novo o esqueleto”, argumenta.
Na verdade, Juraci diz que deu uma bronca em si próprio. “Eu precisava mudar a vida. Senão ela mudaria comigo. Então me inscrevi na Unip e fui fazer Direito. Queria entender esse mundo de leis e regras e interpretações. Foi bastante difícil. Eu nunca atuei em interpretações e estava distante dos cadernos há décadas. Estava com o cérebro sem estudar há meio século”, brinca, referindo-se ao tempo de menino na escola.
O diploma
Juraci Xavier fala que era o único da terceira idade em sua sala. “Tive muita dificuldade. Mas o desafio era esse mesmo. Conhecer o que não sabia. Começar tudo de novo. Me mexer. Passei a querer muito o diploma de curso superior e insisti. As matérias eram muito difíceis para mim”, menciona.
O novo desafio tinha dois obstáculos principais. “Eu tinha de me motivar quanto a distância entre meu conhecimento e a área. Não sabia nada. Os tempos e as cabeças também tudo muito diferente de meu mundo. Meio século depois, os jovens mudaram muito. Entre as matérias mais difíceis eu via o tal de Código de Processo Civil. Como tem regra e detalhe jurídico nas leis nesse País”, aborda.
O diploma veio em 2012. “Na semana passada reencontrei dois colegas de minha sala. Eles contaram de jovens que ainda não concluíram o curso. Muitos dos colegas frequentavam mais a mesa de sinuca do bar que fica pertinho da faculdade do que a sala de aula. Tem muito jovem sem compromisso, que vai deixando e deixando. E a vida não espera”, critica.
Mas a vida com o diploma na gaveta passou a também não fazer tanto sentido. “Sem a carteira eu vi que era só bacharel. E se cheguei até aqui e tenho saúde e tempo, pensei que tinha de tentar algo mais.”
E lá foi seu Juraci estudar para o exame da Ordem. Fez a prova de 80 questões, achou difícil, mas passou. “Muito detalhismo e coisas que não sei se algum advogado vai usar um dia. Muito difícil. E ainda cheio de pegadinhas. Acho errado pegadinhas para esse tipo de prova. Vai avaliar o que com pegadinha?”, questiona.
Juraci Xavier passou na primeira fase. E adivinha a matéria que optou para fazer a segunda fase em 13 de setembro próximo? Processo Civil, a matéria que ele achou mais complicada na universidade. “Se é difícil, eu tenho de conhecer, tenho de mergulhar mais, buscar mais. E se é difícil pra muito mais gente, também será pra mim. Estou estudando”, diz.
A disciplina é ir aos livros, no escritório de sua casa, seis horas por dia, em média. “Bem melhor que a meia dúzia de cervejas que alimentavam apenas meu abdômen no bar há pouco tempo”, fala com humor.
Mas Juraci não reclama. Está feliz pelos desafios e por tentar superá-los. Na verdade, já superou...
