Desde sempre ouvimos dizer que “o Brasil não tem jeito”. E, desde sempre, questiono tal afirmação. Não que seja eu um alienado-míope-otimista, mas vejo evoluções. Irritantemente lentas, mas rolam. Tudo tem jeito quando tem gente disposta. Precisamos manter mãos firmes no painel de controle da Nação. Encorajar a coragem.
“O Brasil não tem jeito”. Mas, vejam: quando se imaginaria tanto tubarão sendo preso? E devolvendo dinheiro! Aliás, taí um capítulo à parte. Até pouco tempo também ecoava por ruas, bares e lares, quando o assunto era corrupção: “Quero ver é devolver o que roubou”. Pois está acontecendo. É tão real como recente. E é decente.
Algumas das nossas instituições fiscalizadoras atingiram a forma sólida. Ninguém mais quebra. E elas vão para cima dos larápios de mandato e financiadores do esculacho. Quem sabe, diante do aperto da nação de bem contra os aproveitadores de sempre, uma nova geração possa surgir já sabedora de que o errado, no fim, é punido.
Quem sabe não estamos, enfim, aprendendo que regras, limites e disciplina também combinam com democracia. Precisam existir como freio aos de péssima índole sem que isso represente ameaça à liberdade geral dos bons.
Que nós temos alguma vocação à coisa torta, até concordo. O Brasil nunca foi lá muito certo da cabeça, mas sempre ouvi dizer que “tem um coração de ouro”. O tempo passa (ainda bem!) e podemos amadurecer sem perder o afeto. Está acontecendo. Sempre ouvi dizer que “só o pobre paga o pato”, mas estão aí poderosos e corruptos encrencados. Ou não?
Às vezes, até fica a impressão de que muitos governantes agiram para fortalecer as instituições como forma de marketing servível a seus interesses mais imediatos. Mas não é que elas se fortaleceram mesmo e, agora, agem em nome da correção. Em dois sentidos: no de ser correto e no de arrumar a casa. Estão chegando lá.
A lama toda também serve para limpar as coisas. Sempre ouvi falar em “lama medicinal”. Pois existe na política. Quanto mais a ladroagem aparece, mais aumenta a chance das ratazanas serem emparedadas. Está virando verdade.
O poeirão que sobe faz arder os olhos, tira toda a visão, mas quando se dissipa, revela um país melhor. Até porque, se a esperança sumir na poeira, estaremos seriamente ferrados. Não vai sumir. Tem gente querendo que dê certo. E, com gente disposta, é sinal de que tem jeito. De que demora, mas, sim, se ajeitará.
O autor é editor executivo do JC