Escola é lugar de desaprender. O bom professor sabe disso. Escola é lugar de desconstruir. Todo educador consciente tem certeza disso. Tudo por uma razão bem simples: escola é lugar de pensar. E o professor que pensa e debate com seus alunos vai ter que jogar na mesa da discussão uma avalanche de mentiras que até então pareciam verdades. Hora de ensinar o aluno a aprender a desaprender.
Ainda que ninguém nos diga tais mentiras clara e diretamente, o que está no ar contamina. Cada “verdade” esconde sob a pele dissimulada os seus reais interesses. Há muito preconceito e intolerância nas gavetas trancadas. O caldo sujo entra-nos pelos olhos, ouvidos, alicia-nos a cabeça. Há um discurso da solidariedade, mas somos engolidos pela bolha do individualismo. Outro discurso fala enfaticamente da igualdade, mas nossas pernas querem, a qualquer custo, o andar de cima. “Sem distinção de raça, credo e sexo”, assim dizemos sempre, assim sempre escrevemos, assim, contudo, não vivemos. Tudo se resolve na sala de jantar com um discurso limpo, ético e bem arrumado. Palavras sempre elas, palavras... Aprendemos, enfim, que o baile é de máscaras e só assim se pode dançar.
Exatamente por isso, a escola precisa ensinar o aluno a desaprender. Sem rebeldia e desconfiança, impossível ler as contradições protegidas pelas sombras. Sem questionamento, não escapamos da massa dos interesses escusos que nos aguardam, sorrateiramente, em cada esquina. Não queremos o aluno das melhores notas, o aluno dócil, mas passivo; nada se ganha com papagaios, ecos reprodutores de tantas mentiras. Interessa-nos o aluno que pensa e contesta, mas que saiba por que o faz. Que perceba que a conta não fecha, que as peças do quebra-cabeça não se ajustam, que o peso na balança não confere. Um aluno cujo pensamento seja sua arma de defesa, sempre pronto a dizer não, não vou por aí.
Não consigo pensar uma educação que não seja revolucionária. Mas isso não significa defender mensagens subversivas ou fomentar luta de classes. Também nada tem a ver com ser radicalmente do contra. Sua rebeldia é a do pensamento questionador que coloca em dúvida os enfáticos discursos do poder, sempre transbordantes de certezas. Sua rebeldia é a de combater a inutilidade das escolas que só se comprometem com conteúdos curriculares. Escolas que só ensinam estratégias do vestibular para quem quer se dar bem na vida. A boa educação, a boa escola, o bom professor, os bons alunos são agentes da tão esperada revolução, militantes do sonho ( por que não?) de um mundo melhor. Nada se muda senão pelo pensamento. Daí, desaprender é preciso.
De forma magistral, o poeta português Miguel Torga disse: “Canta, poeta, canta! Violenta o silêncio conformado. Cega com outra luz a luz do dia. Desassossega o mundo sossegado. Ensina a cada alma a sua rebeldia.” Parafraseando o poeta, já passou a hora de dizermos: cantemos nós, professores, violentemos o silêncio conformado. Ensinemos a cada aluno a saudável rebeldia.
O autor é professor de redação e membro da Academia Bauruense de Letras - ABL