Articulistas

Desautomatizar-se

Alexandre Albertini Benegas
| Tempo de leitura: 2 min

                              

Inquestionavelmente determinadas campanhas publicitárias surpreende-nos. Em “Aquela que começa com S ... e termina com A”, a empresa Seara, irreverentemente, provoca nossa percepção interpretativa com imperecível alusão. Com sabor e saber, a apresentadora Fátima Bernardes convida-nos à imperativa atitude renovadora. “Saia do automático.” Na singeleza do convite, reside a análise da reforma íntima. Esta, capaz de modificar os andaimes da íntima construção, dos nossos pressupostos historicamente alicerçados, cujo perímetro compõe o lesivo preconceito por metro quadrado. Neste projeto de desconstrução, ocupamos -quiçá- imperceptivelmente  os cômodos incômodos do silêncio resignador.

Sair do automático propõe rever a nossa fala -reincidente- para os esbaforidos julgamentos, freqüentemente  esposados no lacunar discurso ideológico social reinante. Destarte, tornar-se-iam inaudíveis as citações passionais de empréstimo, mormente portadoras de forte apelo fraternal, os verbos emotivos e,logicamente, bem comportados de aluguel, a crítica desprovida de crítica, sumariamente intestinal. Interjeições usadas farisaicamente como atestado de uma tristeza cênica, faceando o arlequinal, o anedótico e o risível das contradições da natureza humana. Uma verdadeira descomunicação.

Sair do automático pressupõe a realização de uma auditoria psíquica, possibilitadora também de faxina mental, embora a sanha sanitarista realize-a gradativamente para os circunstanciais contratempos, ora administráveis, ora entregues à resolutiva do indispensável exercício legitimamente pessoal da fé. Intencionando nossa melhoria contínua, praticar a sabedoria eclesiástica quanto ao conceito temporal, excelso seria. Reconhecer em nossa faculdade cognitiva a suserania de certas ideias cerceadoras, verdadeiros entulhos mentais de tendenciosas inclinações, com pensamentos nobilitantes, voltados para o orar e vigiar. Tal binômio serviu de suporte para Cristo esgrimar-se contra seus algozes. Similarmente útil o seria como blindagem às nossas constantes batalhas diárias. Afinal, atípico um soldado em vigília, desprover-se de suas armas. A arma da oração. Ainda que o hábito esteja longínquo do capítulo da convicções pessoais.

Prezado(a) leitor(a), desautomatizar nosso olhar, a nossa vista - já cansada- requer coragem e força de vontade, filiais incondicionais do despreendimento matricial. Sair do automático é sinalizar contra a ditadura do corpo e da beleza. Seja como for, a cor e a silhueta do belo são definições, decididamente, subjetivas. Pudera! Ser, estar e sentir-se são concepções bem divergentes, questionáveis, eu diria. Desta forma, desautomatize-se ! Ao fotografar, click!, evite o sorriso premeditado, cosmético de colunas sociais, o sorriso ortodôntico factual, meramente vitrinista. O sorriso protocolar a escamotear o lobo na pele de cordeiro. E diante desta febril necessidade de atestado onipresente em prol da alegria, haja  sorrisos ginecológicos para uma breve penetração fotográfica. Diferentemente de uma mera manifestação labial, busque o sorriso da alma, o sorriso do coração. Sair do automático é isto e muito mais. É ter iniciativas, ... é ter acabativas.

 

O autor é professor universitário de Língua Portuguesa, especialista em Redação e Doutorando em Letras pela Unicamp

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