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Com 64 deles dedicados à borracharia, Jonas Prado relembra profissão

Thiago Navarro
| Tempo de leitura: 5 min

Quioshi Goto
Jonas Libel Prado começou em 1951, quando as borracharias ainda eram chamadas de ‘vulcanizadoras’

Com 80 anos recém-completados, na última terça-feira (25), o borracheiro Jonas Libel Prado viu a frota automobilística de Bauru sair de algumas dezenas ou centenas de veículos, na década de 1950, para os mais de 250 mil carros, motos, ônibus e caminhões que circulam diariamente pelas vias da Cidade Sem Limites.

Testemunha ocular do crescimento do segmento automotivo, Jonas nasceu em Pederneiras, e aos três anos de idade sua família mudou-se para Bauru. Quando tinha 16 anos, começou a trabalhar como borracheiro, profissão que seguiu pelo resto da vida, até se aposentar, em 2006 – mas até hoje, ele vai quase diariamente ao estabelecimento da família, na quadra 6 da rua Antonio Alves, que agora é tocado pelo filho Adilson Levorato Prado, de 56 anos, e pelo neto Gabriel Teixeira Prado, de 28 anos.

“Começamos em fevereiro de 1951, e na verdade foi meio ‘sem querer’. Meu pai tinha alguns caminhões e fornecia lenha para a (estrada de ferro) Noroeste do Brasil, e ele era freguês de um senhor que se chamava Germano Campos, e foi um dos primeiros borracheiros de Bauru. Na época nem era borracharia que chamava, era vulcanizadora. E o Germano ficou doente, com um problema no pulmão, e como não podia mais trabalhar, ele falou para o meu pai se a gente não queria começar a aprender o ofício, para não deixar a oficina parar”, recorda.

Com a oportunidade, Jonas aprendeu a consertar pneus. “Meus dois irmãos eram mais velhos, mas quem se dedicou mais fui eu. Chegava no fim de semana, um ia pescar, o outro namorar, e eu ficava na oficina, porque a clientela começou a chegar. Meu pai falou que eu estava trabalhando demais, e eu respondia que a gente estava começando a crescer. E o Germano ensinou muito bem o ofício”, comenta.

Desde os primeiros anos, a borracharia já era no Centro da cidade, e sempre na rua Antonio Alves. “Começamos na quadra de cima, em um barracão alugado. Depois conseguimos construir o local atual. Mas antes disso, fui comprando as partes que eram dos meus dois irmãos, porque dos três quem se interessou mesmo pela borracharia fui eu”, detalha.

Jonas morou muitos anos no Jardim Bela Vista, e depois mudou-se para o Centro, próximo de onde tinha a oficina, e atualmente reside perto do Altos da Cidade. Seu principal hobby é passear e viajar.

Primórdios

Quando começou na borracharia, Jonas explica que boa parte da demanda era de caminhões, pois ainda eram poucos os carros de passeio. “Depois é que mais gente começou a ter carro, isso já mais pro anos 70 e 80”, afirma. Os métodos usados no conserto de pneus furados também era bastante rústico, recorda.

“A gente arrancava o friso, cortava, punha na máquina, tirava a lona, aí cortava e fazia ‘manchão’ e colocava em pneu de caminhão e trator. Na época os veículos não sentiam tanto a vibração com essa técnica, porque era tudo estrada de terra, e era pneu de trator e caminhão. O que fazia muito também era desmanchar pneu e tirar lona fria, até porque os pneus eram muito grossos, e aí vendia isso pro pessoal que fazia chinelo, sandália”, menciona.

A mudança nas técnicas começaram a ser mais sentidas nos anos 60. “Olha, foi por volta de 1965 que começou a modernizar. Antigamente, era caldeira a vapor, depois foi chegando máquina elétrica. Hoje é tudo manchão pronto, é bem mais rápido para fazer um reparo”, analisa.

Jonas revela ainda que sempre foi muito intuitivo, o que o ajudou bastante em tempos na qual telefone ainda era um luxo. “Às vezes acontecia de eu pensar muito em um cliente, e de repente naquele dia ele me ligava falando que estava com problema, ou pra fazer algum socorro. Quando alguém furava o pneu na estrada, o pessoal dava um jeito de ligar de algum lugar para a oficina ou em casa, no fixo, e aí saíamos para fazer o socorro. O engraçado é que muitas vezes, pouco antes, eu tinha imaginado que ia falar com esse meu cliente, e acabava acontecendo mesmo de me ligarem para socorrer”, diz.

Terceira geração

Jonas começou com a borracharia junto dos dois irmãos e do pai, mas logo assumiu sozinho os negócios. Hoje, seu filho Adilson e seu neto Gabriel é que cuidam da oficina, que se expandiu e não é apenas borracharia, mas também auto center, com serviços como alinhamento e balanceamento, entre outros. Há ainda mais três funcionários que trabalham com as duas gerações mais jovens da família Prado.

Há nove anos aposentado, Jonas não consegue ficar longe da borracharia. Todos os dias, ele lê o jornal pela manhã em sua casa, e em seguida vai para a oficina, e além de levar o exemplar para os filhos, fica algum tempo no local. Além de Adilson, Jonas ainda tem mais uma filha, Elaine, que atualmente reside na cidade de Santos, no litoral paulista.

Dicas

Com seus 64 anos de experiência, Jonas afirma que, hoje em dia, é mais difícil os pneus furarem porque há menos objetos potencialmente cortantes nas vias. “Há cinquenta anos, a maioria das ruas era de terra ou paralelepípedo, as estradas também muitas de terra, e sempre tinha muita tranqueira jogada no caminho, por isso era comum furar pneu. Atualmente o que fura mais é quando tem algum prego ou parafuso solto, ou se a pessoa esbarra em uma guia, por exemplo”, define.

Sobre a calibragem dos pneus, Jonas também dá dicas. “Carro de passeio comum, pode calibrar em 28 libras para andar na cidade. Se for viajar, aumenta mais cinco libras nos pneus traseiros. Agora veículo maior, como caminhonete, pode calibrar com mais para o dia a dia, por volta de umas 35 libras. Se for carregar, aí aumenta também”, relata.

 

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