| Desiree Dias/Divulgação |
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| O anfiteatro de Campo Mourão foi instalado em um parque que integra preservação do meio ambiente |
O Parque do Lago, em Campo Mourão (PR), guarda muito mais que similaridade em traços com o Vitória Régia em Bauru. Tal qual o formato da instalação acústica do principal cartão postal daqui, o anfiteatro de lá, com placas de cimento como se fossem folhas verticais, dispostas abraçando o arco que envolve a concha acústica da plataforma de palco em oval, guarda relação de semelhança no projeto e no DNA do integrante da equipe que concebeu a instalação na cidade paranaense, o arquiteto bauruense Rubens Gonçalves Paula.
Falecido em 2013 de infarto ao 50 anos, quando praticava seu esporte preferido, o futebol, Rubens Paula levou para a cidade paranaense uma versão ampliada da conjugação entre espaço público e convivência da comunidade. A viúva Ricardina Dias, economista que conheceu Rubens durante sua permanência como profissional na área de planejamento da prefeitura paranaense, recorda dos fundamentos idealistas do bauruense ao defender o projeto do Vitória Régia Mourãoense.
“O lugar onde está instalado este espaço para apresentações culturais, artísticas, era um fundo de vale, muito comum nas cidades. O projeto do lago e das intervenções em seu entorno foi realizado por um conjunto de pessoas da Prefeitura, do qual o Rubens fazia parte. É o único parque da cidade e com alto índice de utilização, uma área que envolve mais do que o espaço do anfiteatro em si, mas uma área que foi revitalizada para a preservação do verde e a eliminação de lixo e contra invasões no local”, recorda.
Ricardina avalia o ex-marido como “idealista, compromissado e autodidata. Compor o anfiteatro nessa área do parque como um complexo foi uma ação de compromisso. E isso gerou uma arena que é bastante utilizada para ações culturais, como música e teatro. O parque urbano tem uso intenso. O projeto realizou o represamento do rio, a formação do lago, a área florestada no entorno, pista de caminhada e as instalações para práticas esportivas e de cultura”, acrescenta.
O Vitória Régia de Campo Mourão foi concebido por uma equipe, entre eles Rubens Paula, Celso Tanaka, também arquiteto da Secretaria de Planejamento à época, Edson Battilani, secretário do Meio Ambiente de então e funcionários da pasta, conta a ex-esposa.
“Acho que não só a concepção do projeto, mas a característica de idealismo, da utopia de querer fazer tudo perto do perfeito e do compromisso com a cidade de Campo Mourão vieram juntos de Bauru com o Rubens. Quem esteve ou está envolvido com as questões públicas na cidade e com a vida da cidade reconhece o trabalho dele aqui”, reforça.
Na época do projeto, início dos anos 90, o prefeito de Campo Mourão era Rubens Bueno, atualmente deputado federal pelo PPS do Paraná. Através de sua assessoria, ele salienta o trabalho de revitalização dos espaços públicos na cidade de Campo Mourão (PR) pela equipe da qual fez parte Rubens de Paula, “entusiasta das ações de planejamento urbano na cidade e que, em função de seu trabalho, deixou em sua trajetória outras marcas de seu trabalho profissional e dedicação”.
E foram várias participações de Rubens. Ele atuou diretamente no planejamento com a organização da legislação urbanística, a participação na elaboração e acompanhamento do Plano Diretor do município paranaense em 1995, a coordenação dos trabalhos de reestruturação do Cadastro Técnico Municipal, informatização do setor de Projetos e de Geoprocessamento, estruturação do departamento de Sistema Viário, entre outras atividades.
Ricardina elenca que o bauruense ainda atuou na concepção de obras do sistema viário, como os de sinalização, o acesso à avenida Capitão Índio Bandeira (principal avenida da cidade), Jardim Lar Paraná, Santa Casa e Rodoviária.
O Teatro Municipal de Campo Mourão, inaugurado em fevereiro de 1995, com capacidade para 470 lugares e área de 1.500 m², foyer, palco, instalações de cenotécnica, iluminação e som recebeu, no ano passado, o nome do bauruense. Paula ainda foi autor do projeto de revitalização da antiga Rodoviária, transformada no Espaço da Estação da Luz, com a Biblioteca Pública Municipal Prof. Egydio Martello, espaços para sala de pesquisa e, ainda, o Núcleo de Escritores da 12ª Regional de Cultura do Paraná e abriga a Academia Mourãoense de Letras.
“Ainda o vejo na areia”
O vereador e irmão de Rubens Paula, o oftalmologista Raul Gonçalves Paula, não assimilou a perda do irmão. “Perder um irmão aos 50 anos é muito difícil. Ele era muito ativo, produtivo, jogava futebol três vezes por semana e faleceu fazendo o que gosta, no campo de futebol e de infarto. Temos uma diferença de dois anos e meio de idade. Convivemos juntos. Perdi o chão”, comenta.
Das lembranças mais marcantes de Rubens, Raul conta que os passeios no litoral são os mais fortes. “Íamos à praia quase sempre juntos. Eu perdi a vontade de ver o mar. Já fui de volta ao litoral, mas chego lá e a impressão é de que ainda o vejo na areia. Parece que ele está lá andando, que não se foi, só sumiu por uns tempos. A impressão é de que o tempo parou para mim”, fala o médico que perdeu também o pai recentemente.
O arquiteto bauruense
Rubens Gonçalves Paula nasceu em Bauru em 3 de janeiro de 1963, filho de Antônio Gonçalves Paula e Nadir Costa Paula. Ao lado do irmão Raul Gonçalves Paula (vereador e oftalmologista), viveu a infância e adolescência no bairro Bela Vista.
Cursou o primeiro grau na Escola Estadual Professor Moraes Pacheco e o ginásio no Colégio Prevê – Objetivo em Bauru. Com grande talento para as artes e sensibilidade em relação à percepção e construção do espaço e das necessidades individuais e sociais, ingressou no Curso de Arquitetura e Urbanismo na Universidade Estadual de Londrina (UEL) em 1982, formando-se no ano de 1987.
Desde então, se dedicou à arquitetura. Passou em concursos públicos para o cargo de arquiteto, como os dos municípios de Itu e Diadema, mas escolheu Campo Mourão, no Paraná, para exercer a carreira. Em 1991 foi convidado para trabalhar no município.
Em 1992, foi efetivado, por concurso público, no cargo de chefia no Departamento de Urbanismo da Coordenadoria de Planejamento, Urbanismo e Habitação, atual Secretaria do Planejamento, onde trabalhou até 2013. Foi em Campo Mourão que conheceu Ricardina Dias e sua filha Desiree Dias que inspirada no pai atualmente cursa Arquitetura na Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR) em Curitiba.
