| João Rosan |
![]() |
| “Embora tenha quase 60 anos, os meus planos ainda são os de um menino de 18 anos” |
Hoje, a Entrevista da Semana conta algumas das principais histórias e particularidades do economista Fernando José Martha de Pinho.
Filho de uma das mais tradicionais famílias portuguesas de Bauru, ele ressalta a importância da família. “Uma família que ensina os filhos, os irmãos, a não serem egoístas, por exemplo, faz toda a diferença. Esses valores ensinados logo cedo é que farão com que cada um dissemine as coisas do bem que o Brasil tanto precisa”, acredita.
Defensor da profissão, o economista também ressalta a importância do ofício: “É uma ciência que dá uma oportunidade tremenda de ligar o mundo dos negócios ao dia a dia das pessoas. A economia proporciona você criar uma antevisão dos problemas que vão ocorrer dentro de três ou quatro anos”.
Viagens também fazem parte da rotina de Fernando, tanto a passeio quanto a trabalho. Consultor financeiro e sócio de uma empresa de loteamento em Bauru, ele comenta que, atualmente, o seu foco são as palestras sobre o cenário econômico nacional e internacional. Leia os principais trechos da entrevista, a seguir.
Jornal da Cidade - Qual foi a trajetória do menino Fernando?
Fernando José Martha de Pinho - Eu venho de uma família de imigrantes portugueses muito conhecida em Bauru. Sou filho de um arquiteto que tem grandes obras em Bauru. Sou o neto mais velho do Comendador Martha. Meu pai também era português, conheceu minha mãe em Portugal, quando estava estudando, e depois vieram para cá. Minha infância foi comum. Naquela época, não havia tantas diferenças em termos de oportunidades. A maioria das pessoas estudava em escola pública, que era de boa qualidade. Eu estudei no Rodrigues de Abreu, depois no Guedes de Azevedo, depois fui estudar no Colégio Técnico Industrial (CTI), na época da Fundação Educacional de Bauru, hoje Unesp. Em seguida, fiz faculdade de Economia na Instituição Toledo de Ensino (ITE). Fui para São Paulo trabalhar na área de consultoria financeira. Lá, fiz mestrado em finanças e pós-graduação em psicologia econômica e, em 1993, fui para a Inglaterra me aprimorar na área de finanças.
JC - Lecionar fez parte das suas atividades?
Fernando - Sim. Eu dei aulas durante muitos anos na Universidade Paulista (Unip), em Bauru, e nas Faculdades Metropolitanas Unidas (FMU), em São Paulo. Hoje, eu promovo alguns cursos empresariais sobre cenários econômicos, administração financeira...
JC - Ser economista sempre esteve em seus planos?
Fernando - O estudo da economia, apesar de ser uma ciência dita humana, também tem muito de exatas. É uma maneira muito formal de se entender porque os fenômenos socioeconômicos ocorrem. Eu sempre tive muito interesse em aprender isso porque essas correlações entre as pessoas e os fatos econômicos, e tudo o que acontece na economia, de bom ou de mau, acaba impactando todos os níveis socioeconômicos. O curso me ensinou a perceber a importância de você investir no ser antes do ter. Desde criança, eu tive grandes oportunidades de estudar e viajar. Aos 6 anos, por exemplo, eu fiz a minha primeira viagem para a Europa, o que me ajudou a abrir os horizontes. Tudo isso, somado ao estudo da economia, me ajudou a perceber que o profissional atual precisa pensar de maneira global e estar habilitado a trabalhar em qualquer lugar do mundo.
JC - O que você quer dizer quando ressalta o “ser antes de ter”?
Fernando - Eu penso que isso vem muito dos valores familiares. Vejo que o modelo familiar está falido e, por não terem orientação em casa, muitas pessoas acabam tendo que se identificar apenas com os bens materiais, que se tornaram um fator de diferenciação (entre aspas). É o consumo pelo consumo. Quando você chega a certa fase da vida, você vê que o material é importante, mas, se você não tiver a valorização do ser, o dinheiro, por maior que possa ser o montante, não resolve mais tanta coisa. A ênfase em valorizar as pequenas coisas da vida é muito mais importante em alguns aspectos do que você apenas trabalhar para se tornar multimilionário. Muitas vezes, uma pessoa multimilionária só tem dinheiro, e não o que é mais importante na vida, que é uma família estruturada, a espiritualidade, respeito aos outros...
JC - O cenário é desafiador para todos. O economista é mais valorizado e mais requisitado em épocas de crise?
Fernando - Assim como ocorre com qualquer outra profissão, há sempre demanda para o profissional da economia. Porém, há economistas e economistas. É uma ciência que dá uma oportunidade tremenda de ligar o mundo dos negócios ao dia a dia das pessoas. A economia proporciona você criar uma antevisão dos problemas que vão ocorrer dentro de três ou quatro anos, por exemplo. Mas há economistas que estudam e os que não o fazem.
JC - É um curso que você indica?
Fernando - É um curso que eu indico por uma razão muito simples: o nível de concorrência hoje, no Brasil, na área de economia, é muito baixo. A maioria dos brasileiros, por não terem base matemática, acaba optando por profissões em que a matemática não é tão necessária. Também indico porque é uma profissão, como poucas, que dá uma visão de conjunto do que está acontecendo no Brasil e no mundo e explica porque o entendimento de causa e efeito é tão importante para que as pessoas se livrem de complicações.
JC - O que você projeta para sua vida profissional?
Fernando - Embora eu já tenha quase 60 anos, os meus planos ainda são os mesmos que os de um menino de 18 anos. Eu acho que tudo o que você faz com carinho e amor é quase como lazer. Eu encaro o trabalho e o lazer com a mesma visão. No Brasil, de modo especial na minha profissão, ainda está tudo por fazer. Tudo o que vemos nos últimos anos, os fracassos dos planos econômicos, as tentativas de acertar, não têm nos levado a coisas muito boas. O Brasil ainda não encontrou o rumo porque ainda não encontrou pessoas que realmente estão afinadas com o projeto de um País de longo prazo. Isso é uma coisa urgente, porque as novas gerações estão desanimadas, já que não veem uma luz no fim do túnel. Precisamos pensar em eleger pessoas que pensem o Brasil não só até o próximo mandato, mas sim pessoas que tenham o compromisso moral de entender que elas não têm o direito de condenar o País ao sofrimento, ao atraso, por um projeto próprio de poder.
JC - Você já pensou em entrar para a política?
Fernando - Não. Isso está descartado porque eu não tenho talento para isso, e eu tenho por hábito fazer autocríticas diárias. Eu acho que todos nós deveríamos olhar para o espelho como um ato diário de humildade para entender que nós não podemos tudo, por mais capacidade intelectual que possamos ter. Há muita gente no lugar errado.
JC - Por que a “nota 10” vai para a família?
Fernando - Porque eu vejo o Brasil carente de valores morais. E acredito que precisamos de pessoas que pensem um pouco no bem comum. Uma família que ensina os filhos, os irmãos, a não serem egoístas, por exemplo, faz toda a diferença. Esses valores ensinados logo cedo é que farão com que cada um dissemine as coisas do bem que o Brasil tanto precisa.
JC - Pedalar é uma paixão?
Fernando - Eu já pedalei mais, mas adoro o ciclismo. Já fiz viagens com minha esposa, com grupos. Já fui até para Brotas. É um esporte de baixo risco, que não polui e que te oferece a oportunidade de conviver com a natureza. A comunhão com a natureza é muito importante.
Perfil
Nome: Fernando José Martha de Pinho
Idade: 59 anos
Local de Nascimento: Bauru
Esposa: Sílvia Regina Pardo de Pinho
Libro de cabeceira: Obras que me ajudem a me tornar uma pessoa melhor a cada dia
Hobby: Ciclismo
Filme preferido: Doutor Jivago
Estilo musical predileto: Gosto de música boa
Para quem dá nota 10: Para minha família e para os que têm compromisso com o bem-estar comum
Para quem dá nota 0: Para os corruptos e preguiçosos que teimam em ignorar a necessidade de aprimoramento constante
E-mail: fm.pinho@uol.com.br
