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Só dez anos, mas parece bem mais

João Pedro Feza
| Tempo de leitura: 2 min

Numa alta noite da semana, completamente perdido no menu do Netflix, parei no filme “Tudo Acontece em Elizabethtown” (EUA). E fui até o fim, contrariando o relógio e o sono. É quase certo de que já havia visto o filme bem antes, provavelmente à época de seu lançamento, em 2005. Nem é o caso de falar sobre a história em si. O que ficou martelando na minha cabeça foi outra coisa: há “míseros” dez anos, só dez anos, o mundo (e o ritmo do mundo) era bem outro.


Os personagens centrais passam boa parte da trama em conversas de celular. Já práticos e portáveis, os aparelhos, contudo, em nada lembram os atualíssimos smarthphones. E nada em cena de iPads, tablets, redes sociais, aplicativos, etc. Fala-se ao celular no filme, mas só os jovens personagens centrais. Os demais não vivem no “cel”.


Se fosse hoje, os mesmos personagens passariam boa parte do tempo compartilhando fotos, vídeos, músicas, gracinhas e provocações em tempo mais real do que o mais realista dos tempos. O filme de hoje retrataria, portanto, o exagero tecnológico que já virou “agora”.  


Em “Elizabethtown”, os personagens também se falam (e muito) pessoalmente, contam piadas sem pressa, se abraçam com veemência e se curtem fora das esferas virtuais. 2005 ainda era meio analógico.


Em um outro filme (“10.000 km”), este, espanhol, o casal que se vê distante por força de trabalho tenta minimizar a tensão com o uso de câmeras em seus finos “computas”. Aí, sim, algo bem mais familiar aos nossos tempos. Até porque trata-se de uma produção de 2014.


Fica nítido, também, comparando-se os tempos, que estamos alucinados com o ritmo alucinante de tudo. Essa aceleração toda faz com que tenhamos tudo logo – e tudo pela metade ou menos. Saber primeiro é quase nada aprender. Espiar por segundos é pouco assimilar. Essa velocidade incrível atropela o apreço pela reflexão e despreza o desfrute.


Estamos perdendo o paladar para a vida como a conhecíamos. Fato. Resta saber se essa nova vida, totalmente conectada, não está nos desconectando de mergulhos necessários à condição humana.


Chegamos como relâmpagos aos pontos finais, mas abdicamos das exclamações oferecidas pela paisagem. Nosso maior pesadelo virou perder a conexão: sinal dos tempos. É legal Netflix e é bom ter acessos eficientes, mas ainda há maravilhas reais bem palpáveis fora da tela touch.


O autor é editor executivo do JC

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