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O homem sensível

Zarcillo Barbosa
| Tempo de leitura: 4 min

Faz parte da tradição da vida acadêmica saber cada vez mais sobre cada vez menos coisas, até saber tudo sobre nada. O escritor-cientista Steven Pinker, criticava numa entrevista a mania das “teorias sobre tudo”, que viciam a imaginação de um futuro confortavelmente científico e sábio. Pode não ser verdade, mas faz sentido.  Outro dia, a mídia mundial repercutiu o assunto de uma palestra do semiologista Umberto Eco porque disse que “a internet deu voz a uma multidão de imbecis”.


Eco não ataca o caráter das pessoas que todos os dias emitem opiniões definitivas sobre os mais variados e complexos assuntos, apenas lembra que é uma simples questão de lógica aceitar que existe uma multidão de imbecis em um planeta com 7 bilhões de pessoas. O escritor  de “O nome da rosa”,  vale-se  de um personagem de Jorge Luis Borges para definir o militante da internet – Funes, o memorioso – que se lembra de tudo, nada esquece, mas nada analisa. A imprensa também nos enche de números sobre as performances negativas em todos os setores da economia, efeitos que os brasileiros já sentem no bolso há dez anos.  Ninguém se lembra de analisar o problema político sem saída a que nos levaram atores medíocres e burocratas investidos no papel de estadistas.


Nada contra o destampatório da multidão, via redes sociais, e aos delírios exibicionistas. Dela não se pode exigir discernimento e muito menos a expertise que falta aos que deveriam ter a responsabilidade de dirigir a nação.  É melhor que o povo berre do que permanecer em silêncio e ter que engolir as frustrações. O homem não é feito só de razão pura, mas também de instintos, de sentimentos, de emoções. O escritor argentino Ernesto Sabato, falecido em 2011, além de genial literato era um vidente sutil.


Nos anos 1970 criou a metáfora da geladeira, símbolo dos eletrodomésticos que tanto fascinava naquela época. As famílias colocavam a geladeira na sala de visitas, como demonstração de prosperidade e atualização tecnológica, com os pinguins de louça em cima. Sabato apelava para que tirassem o eletrodoméstico, útil por todos os títulos, do altar em que a colocaram como uma espécie de deus laico, para simplesmente transportá-la à cozinha, seu lugar ideal.


Carlinhos Brown, compositor e percussionista de músicas afro-brasileiras, culpou a geladeira pela fome no Nordeste. Quando ela não existia, as pessoas lutavam pelo pão de cada dia e ninguém reclamava. Agora, sentem-se famintos pelo simples fato dela estar com vazios na prateleira. O aparato tecnológico é neutro, mas paga pelo que não faz desde o tempo do luddismo, movimento coletivo do início do século 19 que visava a destruição das máquinas, como responsável pelo desemprego e pela miséria social nos meios de produção.


A metáfora da geladeira de Sabato,  a meu ver deve ser entendida de outra forma. Nesse mundo gelado – sem nervos, sem instinto, que é a objetividade pura - abre-se o espaço para a resistência dos homens de coração quente. Para a resistência dos homens sensíveis. É algo inerente ao humano.  O que se deve querer é que a ciência e a tecnologia sejam colocadas no lugar em que devam estar. A utilização considerada antiética ou inadequada somente pode ser corrigida pela educação. Isto se quisermos readequá-la, embora não seja relevante.


As escolas deveriam ensinar as premissas do pensamento crítico, como faziam os filósofos na Grécia Antiga. O jornalismo pode ser reinventado com uma função educadora.  Elevado por esses pilares, ninguém mais iria se preocupar em  achar “brega” as pessoas que fazem coraçõezinhos com os dedos, ou que  entram em orgasmos com as agressões gratuitas. Atrás de uma fera da internet pode estar um bom pai e chefe de família, funcionário exemplar na empresa. Acontece que no convívio com a multidão de outros anônimos é capaz de agir como um selvagem paleolítico. O sociólogo Manuel Castells chamava de “ira sagrada” as covardes doses de ódio e homofobia patrocinadas pelo seguro ambiente do anonimato. Ao mesmo tempo absolvia as redes sociais que “não criam, só amplificam”.  


A sociedade é plural, também capaz de apoiar boas iniciativas, mobilizar um grande público em defesa dos valores comuns e dar “viva” as boas iniciativas de interesse coletivo. Àqueles que querem ser mais introspectivos, acostumados à solidão de um lento voo para dentro,  resta o exercício fundamental da tolerância, única forma possível de convivência.


O autor é jornalista e articulista do JC

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