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Colônia Regional de Pescadores tem 450 bauruenses cadastrados

Nélson Gonçalves
| Tempo de leitura: 7 min

Um banquete de curvinas, tilápias, pacus e até dourados frescos são comercializados, diariamente, por cerca de quatro centenas de bauruenses diretamente junto aos consumidores em Bauru. Sim, a Cidade Sem Limites que ainda faz escorrer o marrom escuro, e fétido, do esgoto in natura em seus córregos – tendo como mensageiro principal o rio Bauru que não me deixa mentir – é a mesma capaz de reunir em torno de 450 pescadores credenciados junto ao Ministério da Pesca e que estão vinculados a essa atividade.

O dado chama ainda mais a atenção em razão da cidade, polo regional, não contar com um rio caudaloso sequer para permitir que os cardumes façam a alegria dos pescadores na armação de suas redes. Mas, ainda assim, Bauru conta com centenas de homens que se mantêm da atividade pesqueira. Boa parte pesca todo dia na região e comercializa o alimento sem atravessadores. Ironia ou não, a cidade que é a maior “contribuinte” de volume de produção de esgoto para afogar a já combalida pureza do rio Tietê também é a mesma que depende, em sua maciça maioria, do mesmo leito de água doce para gerar produção e receita por peixes.

A informação não surpreende o secretário municipal de Agricultura de Bauru (Sagra), Francisco Maia. “A produção do pescado em lagoas, tanques, por confinamento, já tem grande escala em Bauru. Mas temos também uma legião de profissionais que vivem dessa atividade e contribuem para a economia regional com peixes de água doce em nosso entorno, como o rio Tietê. No período de defeso, esses pescadores recebem um salário mínimo por quatro meses para a renovação e preservação da oferta de espécies nos rios”, comenta.

O defeso vai de 1 de novembro a 28 de fevereiro. A atividade, porém, vai enfrentar problemas como contigencionamento e corte de despesas por parte do governo federal, em razão do ajuste fiscal implementado pela presidente Dilma Rousseff (PT) e a retração na economia.

O presidente da Colônia de Pescadores Profissionais Z-20, Edivando Soares de Araújo, de Barra Bonita (SP), confirma as informações da Sagra. “Temos uma associação legalmente instituída, federada e com seus documentos em dia. A formação aconteceu ainda em 1978, mas hoje atuamos organizados e com credenciamento de centenas de profissionais junto ao Ministério da Pesca”, comenta.

Edivando lembra que uma parte desses pescadores tem outra atividade. “Eles atuam na pesca de forma contínua mas muitos também têm outra atividade, o que agora é permitido pelo Ministério da Pesca. O profissional que pesca com frequência e comercializa diretamente o produto está na colônia. Em Bauru temos mais de 400 inscritos na colônia. Atualmente contamos com 250 em atividade, uma média que vem sendo mantida nos últimos meses”, aponta.

A colônia tem 7.256 pescadores associados. A área de cobertura é longa, indo de Barra Bonita até as divisas com Paraná e Minas Gerais. “O associativismo é livre. Por isso nós temos essa abrangência, com associados de diferentes regiões”.   
A relação conflituosa com o Tietê

Segundo o presidente da colônia regional, Edivando Soares de Araújo, a maioria da associação atua no rio Tietê, em diferentes municípios da região. “O Tietê é muito importante para os pescadores de Bauru e região. Muitas famílias sobrevivem da pesca no rio que para os paulistas é condenado para quem está próximo de São Paulo. Em vários municípios, como Iacanga e Botucatu, estão vilarejos com pescadores. Muitos bauruenses vão até Arealva e Pederneiras para a pesca profissional”, fala Araújo.

Edivando vê, com humor, o lado avesso da relação de Bauru com o rio que abastece os profissionais do setor. “O Tietê é fundamental para os pescadores, inclusive os de Bauru. Não conheço nenhum que não precise do rio para sua atividade. Mas Bauru é a cidade que mais contribui para a poluição do rio. A torcida é para que a Prefeitura de Bauru complete o programa de tratamento de esgoto logo, para que todas as cidades que vêm depois deixem de receber esse material. Hoje a contribuição é muito ruim para o Tietê e pela maior cidade”, fala.

Mas ele vê o panorama com otimismo. “Até aqui o rio Tietê recebeu de tudo. Algumas cidades avançaram na relação com o rio, como Botucatu que já conseguiu o selo verde e o azul do governo federal. É fundamental o tratamento de esgoto para as cidades, essencial. E Bauru está com a ação agora em andamento”, acrescenta.

Mas o presidente da colônia lembra que o lixo no rio tem outras origens. “É impressionante como moradores que fazem piquenique à beira do rio deixam muita sujeira. E não dá para entender como as pessoas jogam tanta coisa no rio. A Colônia fez trabalho de coleta em uma semana no rio Tietê no ano passado e retiramos 600 m3 de lixo”, enfatiza.

Cultura do consumo

Rogério Nogueira comercializa peixes do mar e de rio há seis anos no entreposto do Ceagesp. “Bauru é ainda uma cidade sem cultura consolidada de consumo em massa de peixe. E falta informação. É comum perguntas como sobre o camarão. E eu explico que não pode congelar o camarão porque a carne perde a propriedade. Ele tem de ser vendido vivo, em água. Mas um mercado expôs camarão assim e a clientela se assustou”, situa.

Nogueira reforça que o gosto do peixe não agrada a muitos. “Tem muita gente que come peixe mas não quer peixe com gosto de peixe. É um hábito cultural. Tem gente que tempera com limão. Eu não gosto porque tira o gosto do peixe. Pra mim tem de temperar só com sal e em alguns modos de preparo marinar com azeite só. Mas são hábitos que precisam ser quebrados com o tempo”, posiciona.

Para o comerciante a compra do peixe de pescadores daqui enfrenta obstáculos. “Pra mim tem problemas que o entreposto com nota fiscal não me traz. Não dá para comprar do pescador na beira do rio. Como fica o armazenamento disso? Para mim o entreposto, mesmo de fora, mas com nota fiscal traz segurança no negócio”, argumenta Nogueira.

Sem atravessador

O maior obstáculo ao pescador regional não tem sido a oferta do cardume no rio, mas escapar do atravessador. Entre os pescadores há dificuldade em organizar logística com viabilidade econômica que garanta a média de produção diária nas redes com a entrega direta e a preço médio justo.

Aparecido Benedito fala que “a venda na beira do barranco é uma saída para muitos, mas o ideal era ter condições de transporte e entrega no mesmo dia para ponto direto ao consumidor”. Aurélio Neto exemplifica que a curvina, muito procurada por aqui por ausência de espinho e sabor leve, é vendida a R$ 6,00 para o atravessador. “Mas ela chega a R$ 10,00 0 quilo para o consumidor. Se vender direto é melhor pra todo mundo, mas não é fácil”, argumenta.

Daniel Lordello pesca, como muitos, desde menino. “Eu ia para a beira do rio com meu avô José Lordello e também fui com meu pai. A gente ia muito na represa de Ibitinga. Mas eu parei há um ano e montei uma firma de instalação elétrica residencial. Eu mantenho a tralha porque gosto de pescar e também gosto de comer. Meu pai continua pescando e minha mãe atua também”, conta.

Para Daniel, não surpreende o número de pescadores cadastrados por Bauru. ”É um trabalho individual e por isso não aparece para o povo. Mas em Bauru tem muito pescador e gente vivendo da pesca. O pescador prefere entregar na beira do rio porque facilita e o peixeiro (atravessador) leva em grandes quantidades. Mas a vida do pescador é muito difícil”, aponta.

Segundo Edson Oliveira, a oferta de peixes no rio Tietê, por exemplo, está estável. “Não tem diminuído não. É que tem dia que o pescador pega um cardume na rede e faz 100 quilos e tem dia que não pega nem 10 quilos”.

Edivando Araújo lembra que no inverno a média de pescados de rio cai. “É normal com o tempo frio pegar menos. Hoje um pescador consegue de R$ 1.600,00 a R$ 2.000,00 de receita mensal da pesca. Não é moleza não. Tem de trabalhar duro”, cita. Ele ainda comenta que não procede a informação de que o rio está “seco”. “Na represa da Barra, acima da cidade, o rio está é muito cheio. Estão segurando água para implosão de pedras em outro ponto. Mas não é por seca”, diz. Segundo ele, os aguapés também não estão atrapalhando a pesca. “É sujeira. Onde o homem põe a mão ele suja. E aguapé prolifera, mas a pesca não atrapalha ainda com isso”, finaliza.         

 

 

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