Oclima conjunto de insegurança política, crise econômica e manifestações borbulhando sempre gera um questionamento: haveria possibilidade de uma intervenção militar hoje no Brasil? No que depender do próprio Exército, são as instituições que devem reger o País e não há necessidade de uma tutela militar. A informação foi prestada pelo comandante do Exército, o general Eduardo Dias da Costa Villas Bôas.
Ele esteve ontem em Bauru em visita ao Tiro de Guerra (TG) e à 6ª Circunscrição de Serviço Militar (CSM) da cidade. “O Brasil é um País com instituições funcionando adequadamente e tem um sistema de peso e contrapeso que dispensa a sociedade de ser tutelada”, observou Villas Bôas.
A cerimônia no TG reuniu autoridades civis e militares e contou com a presença de vereadores, do prefeito Rodrigo Agostinho e do astronauta Marcos Pontes. O general do Exército foi recepcionado pelos 100 atiradores do TG e outros 50 do CSM. Confira, abaixo, trechos da entrevista com Villas Bôas.
Jornal da Cidade - Nas manifestações, a gente tem visto alguns pedidos de intervenção militar. Como é a visão do Exército em relação a isso?
General Villas Bôas - Em nome do Exército não há porque se preocupar com isso. O Brasil é um País com instituições funcionando adequadamente e tem um sistema de peso e contrapeso que dispensa a sociedade de ser tutelada. Na verdade, a população é carente de valores que o Exército encarna e segue preocupada com a manutenção da estabilidade e atuar sempre com legalidade e legitimidade. Quando me perguntam “o que o Exército vai fazer?”, eu sempre digo: “leia o que está no artigo 142 da Constituição [As Forças Armadas, constituídas pela Marinha, pelo Exército e pela Aeronáutica, são instituições nacionais permanentes e regulares, organizadas com base na hierarquia e na disciplina, sob a autoridade suprema do Presidente da República, e destinam-se à defesa da Pátria, à garantia dos poderes constitucionais e, por iniciativa de qualquer destes, da lei e da ordem]. Ali está escrito de que maneira o Exército irá cumprir suas missões”.
JC - Bauru é rota de drogas vindas do Paraguai, por exemplo. Como combater o tráfico nas fronteiras?
Villas - O Brasil tem uma conjuntura estratégica bastante complexa. Temos 17 mil quilômetros de fronteira, a segunda mais extensa do mundo. Entre os vizinhos, três Países produtores de cocaína e um País produtor de maconha. A Polícia Federal estima que 80% da criminalidade esteja ligada direta e indiretamente às drogas. Toda problemática de segurança e criminalidade dos grandes centros é em decorrência do que acontece nas nossas fronteiras. O reflexo disso, claro, chega em Bauru, que acaba sendo rota do tráfico. Por isso, o Exército está implantando um sistema de monitoramento e vigilância de fronteira (Sisfron), que começou pelo Estado do Mato Grosso do Sul e, no próximo ano, se estende para o Paraná, Mato Grosso e Rondônia. Com isso, teremos maior capacidade de ter uma vigilância efetiva da fronteira. Para que isso aconteça é essencial que incorporemos tecnologia. Portanto, é um sistema com alto componentes tecnológicos incorporados para esta finalidade.
JC - E na prática?
Villas - É uma rede de radares e sensores, estendida ao longo da faixa de fronteira (assim que o Brasil lançar o seu satélite, o sistema será apoiado também pela rede de satélites). Essa rede será interligada às nossas unidades e todos esses sistemas estarão à disposição dos órgãos que têm responsabilidade de combater os crimes transfronteiriços como a Polícia Federal, Secretarias de Segurança Pública, Receita Federal, Vigilância Sanitária, entre outras. Nós pretendemos que ocorra maior efetividade para dar alerta em tempo real e atender as ocorrência em tempo real também.
JC - Como os cortes previstos pelo governo podem impactar o Exército? Em Bauru, algum programa poderá ser reduzido?
Villas - Em Bauru não vai ter nenhuma repercussão. Os cortes incidiram, principalmente, nos grandes projetos que o Exército está desenvolvendo como o sistema de vigilância de fronteiras, na aquisição dos nossos blindados. No entanto, esses projetos não serão interrompidos, mas sofrerão um atraso da sua implantação.
JC - Qual a avaliação e importância estratégica do Exército em Bauru?
Villas - São Paulo é o Estado mais desenvolvido do País. É importante para o Exército ter essa integração e fazer recrutamento também para o seu quadro na região de Bauru.
JC - Existe a possibilidade de aumentar o número de atiradores (hoje são 100) em Bauru?
Villas - Existe, mas não em um prazo visível. Todo o País está enfrentando dificuldades econômicas, o que reflete no orçamento. Isso nos impossibilita porque não há planejamento de expansão. A preocupação maior do Exército, atualmente, é a evolução não em caráter quantitativo, mas qualitativo. Temos que melhorar nossos equipamentos, sistemas, instalações, para ter mais efetividade e desenvolver as nossas capacidades a partir desse aspecto qualitativo.
Mais atiradores
O prefeito Rodrigo Agostinho revelou que aproveitaria a visita do general Eduardo Villas Bôas a Bauru para solicitar o aumento no número de vagas do Tiro de Guerra. “A gente tem discutido isso com o Exército, que é grande parceiro da cidade nas diversas campanhas que realizamos. De 500 jovens alistados, 400 são dispensados”, lamenta.