O Sindicato dos Bancários de Bauru e Região/CSP-Conlutas, bem como os sindicatos do Rio Grande do Norte e do Maranhão, estão propondo a volta do gatilho durante a campanha salarial deste ano. Medida pouco conhecida pelos nascidos depois da década de 90, a iniciativa foi adotada na época do Plano Cruzado e estabelecia o reajuste automático dos salários sempre que a inflação aumentasse 20%.
De acordo com a diretora de finanças da entidade, que representa 1,1 mil bancários de Bauru e de outras 40 cidades da região, Maria Bueno de Camargo, o gatilho só seria aplicado em épocas de alta na inflação e a reposição salarial ocorreria a cada três meses, já que, com a constante elevação dos preços, não dá para esperar por 12 meses. “É uma proposta que só não foi colocada nos últimos anos, porque, aparentemente, não havia crise”.
Apesar de economistas criticarem o gatilho (leia mais abaixo), Maria afirma que não há nada de absurdo na proposa. Para ela, os trabalhadores não têm culpa da crise econômica, política e ética do País, mas, mesmo assim, são os mais afetados. Com o intuito de tornar pública esta discussão, todas as categorias do País, além dos bancários, irão às ruas, no próximo dia 18 de setembro.
Quanto aos bancários, a categoria luta por reajuste de 32,21%, que inclui as perdas salariais referentes aos oito anos do governo do Fernando Henrique Cardoso (FHC), a inflação dos últimos 12 meses e o aumento médio do recebimento dos ativos dos 15 maiores bancos. Além disso, a categoria propõe Participação nos Lucros ou Resultados (PLR) linear, bem como o fim das metas, das terceirizações, das demissões imotivadas e da mesa única de negociações.
Em relação aos bancos públicos, a diretora de finanças do sindicato defende que existe ainda maior defasagem salarial. Para se ter uma ideia, a categoria pede reajuste de 94,51%, sendo 62,3% referentes às perdas acumuladas durante os oito anos do governo FHC. Os banqueiros receberam a pauta de reivindicações há três semanas.
Negociações
A última rodada de negociações será no dia 16 de setembro e, caso não haja acordo, o indicativo de greve está marcado para o próximo dia 23. Questionada sobre o assunto, a assessoria de imprensa da Federação Brasileira de Bancos (Febraban) informa que o calendário da campanha salarial segue normalmente e não há demora nas negociações. Como ocorre anualmente, a partir da entrega da pauta de reivindicações, é fixado um cronograma para discutir os temas pertinentes à categoria. Diante disso, a Febraban só se posicionará após o término de todas as negociações.
Estas datas fixadas, segundo o órgão, são determinadas de comum acordo entre as partes. Para este ano, o calendário segue da seguinte forma: entre os dias 19 e 20 de agosto, a primeira rodada de negociações trouxe à tona as questões relacionadas ao emprego; entre os dias 1 e 2, os temas relacionados à saúde, segurança e condições de trabalho; nos dias 9 e 10 de setembro, na terceira rodada, os temas de igualdade de oportunidades, liberdade sindical e disposições transitórias; e entre os dias 16 e 17, os temas referentes às cláusulas econômicas.
O que é?
Em uma época em que a inflação atingia média de 140% ao mês, os reajustes salariais passaram a ser realizados pelo gatilho, que estabelecia a reposição automática dos salários sempre que a inflação aumentasse 20% (veja na ilustração o histórico das moedas do País). Esta medida foi adotada por pouco mais de um ano.
Protesto
O Sindicato dos Bancários de Bauru e Região/CSP-Conlutas paralisou, ontem, uma agência bancária localizada na Vila Falcão, em Bauru, com o intuito de protestar contra as cinco demissões que o banco realizou em agosto deste ano. Conforme informações da assessoria de imprensa da entidade, só no último semestre, este mesmo banco faturou R$ 11,7 bilhões no País, quantia que corresponde a 26% a mais do que no mesmo período do ano passado.
Economista: volta do gatilho é algo inviável
Em relação ao gatilho, a economista e coordenadora do curso de economia da ITE, Salete Lara, defende que é inviável. “Se os bancários conseguissem este benefício, existe o pressuposto de que todas as categorias teriam o mesmo direito e muitas empresas poderiam quebrar”.
Hoje, o aumento salarial com base na inflação é feito por meio da média anual deste índice. Apesar de condenar o gatilho, Salete reconhece que o método atual não é muito justo aos trabalhadores. “É óbvio que este aumento anual não é correto, porque há um repasse da média inflacionária e, quando você faz média, você abaixa a real inflação”, justifica.
Diante disso, a economista acredita que a melhor forma seria calcular a inflação acumulada ou trazer o valor para algo mais próximo da realidade.