| Quioshi Goto |
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| Vestido com símbolos típicos é lembrança de Angola que Rosimeire ganhou pouco antes de voltar ao Brasil |
Encerrar a carreira e descansar. Esse é o sonho da maioria das pessoas. Mas para a enfermeira bauruense Rosimeire Fátima Serigatto, a fase de relaxamento teve de esperar um pouco mais. Isso porque, mesmo depois de se aposentar, trabalhando por mais de 25 anos na Secretaria Municipal de Saúde, ela optou em cumprir uma missão especial: ajudar em campanhas de vacinação em Angola.
Rosimeire foi para a África por meio de um programa da Organização Mundial de Saúde (OMS), vinculada à Organização das Nações Unidas (ONU). Como Angola é um país onde também é falado o português, foram selecionados três brasileiros – mais de 200 que se inscreveram –, entre eles a enfermeira de Bauru.
Antes de ir para o continente africano, Rosimeire ainda passou por treinamento em Atlanta, no estado norte-americano da Geórgia, durante 20 dias. Depois, ela ainda ficou mais 15 dias no Brasil até embarcar para Luanda, com voo que saiu do Rio de Janeiro, em fevereiro. Ela ficou uma semana na capital angolana, e em seguida foi para ser destino final, a província de Kwanza Sul, que fica 400 quilômetros ao sul de Luanda.
O retorno ao Brasil foi em junho. O interesse em passar quatro meses em uma região pobre da África teve motivação religiosa também. “Sou cristã, evangélica, e encarei isso como uma missão realmente, uma missão cristã, como forma de contribuir com outras pessoas ao encerrar minha carreira”, resume.
Contraste
Angola passou por sangrenta guerra civil entre a década de 1970 e 2002. As disputas tiveram início em 1975, logo após a independência de Portugal, e expuseram as marcas do neocolonialismo europeu que partilhou a África e parte da Ásia em diversas nações, sem respeitar as diferenças étnicas e culturais existentes nos dois continentes. E a guerra civil que durou três décadas, com alguns períodos de interrupção, deixaram reflexos que são sentidos até hoje pelo povo angolano.
“Mesmo na capital, é comum ter quedas constantes de energia. Além da energia elétrica, quem pode usa também um gerador. Em Luanda, o que a gente percebe também é um trânsito bastante complicado. No resto do País, mais ou menos 90% da população vive em áreas rurais, como é o caso da província para onde fui”, menciona.
Mesmo com os problemas no Brasil, a estrutura aqui está bem à frente da encontrada em Angola. “Pelo menos aqui no Estado de São Paulo, todo posto de saúde tem um sala para vacinação, por exemplo. Lá essa estrutura é bem mais reduzida, não tem tanta coisa para os profissionais da saúde”, pondera.
Aproximação
Como aspectos favoráveis aos brasileiros que chegam em Angola, Rosimeire cita o idioma, a comida e a simpatia das pessoas. “Como eles também falam português, a comunicação é tranquila. E ainda moram muitos portugueses no País. A comida deles tem bastante coisa que se parece com a nossa, eles também consomem carne de frango e peixe, usam bastante farinha, tanto a feita da mandioca como a do milho”, diz a enfermeira bauruense.
“Mas a comida lá é mais cara. Agora o que é muito caro mesmo é a água. Uma garrafa de dois litros de água mineral é vendida a 200 kwanzus (moeda local angolana), o equivalente a cerca de dois dólares”, reitera. Portanto, uma garrafa de água custa, aproximadamente, R$ 7,00, pelo preço atual do dólar. “E para tomar, tinha que ser essa, pois boa parte da água lá não é tratada. Para fazer os alimentos também”, confirma.
Se havia essa dificuldade, por outro lado, as pessoas eram bastante solícitas com os estrangeiros que colaboravam na campanha de vacinação. “Os angolanos são bastante receptivos e fazem amizade rápido, além de gostar muito dos brasileiros. Acabei fazendo amizades lá também. No final dos quatro meses, a gente acaba sentindo o fato de ter que voltar por isso, porque acaba gostando das pessoas. Foi uma experiência muito válida”, comenta.
No período em que ficou em Angola, Rosimeire trabalhou em campanhas de vacinação contra a poliomielite (paralisia infantil), que não possui registros recentes no País, mas que teve reincidência em 2011 em Camarões. “As pessoas lá estão bem conscientes que precisam vacinar as crianças. Antes de começar a época de vacinação, eles divulgam bem. Como houve essa reincidência em outro país africano há quatro anos, não pode descuidar. Mesmo no Brasil, as pessoas precisam continuar levando as crianças para tomar a vacina, para evitar que a doença volte”, afirma a enfermeira, que, durante muitos anos, coordenou campanhas de vacinação em Bauru, quando estava no Departamento de Saúde Coletiva (DSC).
Tela e repelente
Rosimeire conta que os brasileiros foram para Angola sem preocupação com o ebola, que causou grande epidemia em países africanos como Gana, Guiné e Libéria no ano passado. “O foco da epidemia foi mais para o norte, em Angola mesmo não houve problema. Quando fizemos o treinamento nos Estados Unidos, antes de ir para lá, já nos tranquilizaram bastante nesse aspecto”, define.
Mas isso não significa que a preocupação com as doenças não existia. Pelo contrário. A malária, que também é comum no Norte do Brasil, deixou todos em alerta durante os quatro meses. “O índice de mosquitos contaminados com a malária lá era grande. Tinha que usar roupa comprida o dia todo, e quando alguma parte do corpo precisava ficar exposta, tinha que passar bastante repelente. Para dormir, usávamos uma tela na cama, para evitar a entrada de mosquitos, e deixava a luz acesa, pois, assim, o mosquito que transmite a malária gosta de ficar perto da lâmpada acesa”, revela.
Antes de viajar, Rosimeire precisou tomar vacina contra oito doenças: poliomielite, hepatite A, febre tifoide, raiva, febre amarela, difteria, tétano e coqueluche.
