Tribuna do Leitor

Ilha

Roque Roberto Pires de Carvalho
| Tempo de leitura: 2 min

Quando menino ele aprendeu na escola primária que Ilha era uma porção de terra cercada de água por todos os lados, menos um, ou seja, onde ele se encontrava. Naquela gostosa e despreocupada fase de sua vida, incorporou a definição e ensinamentos como fato verdadeiro e, assim, como fato consumado jamais esqueceu. Realmente, mesmo depois da adolescência e fase adulta teve a oportunidade de confirmar que a definição dada pelos livros e professores era imutável. Enquanto fosse Ilha seria sempre uma Ilha, cercada de água por todos os lados, não se esquecendo, é claro, menos por um...  

Naquela noite não tão fria de final de inverno, debaixo das cobertas, o sono não chegava. Na tela dos seus pensamentos havia uma certa confusão e isso não o deixava pegar no sono, sono que deveria ser bom, tranquilo e reparador. Rememorando histórias  antigas ouvidas em sala de aula ou em prosas de seu avô, veio a lembrança um nome não muito conhecido de seus amigos, mas que para ele havia se tornado  inesquecível: tratava-se de Daniel Defoe (1660-1731).

      

Esse romancista inglês, autor de  inúmeras  obras, aos 60 anos de idade dedicou-se em colocar nos seus livros fatos verídicos e, assim, registrou a história de Alexander Selkirk, marinheiro escocês que passou quatro anos numa Ilha deserta do Pacífico e, a ele, atribuiu o nome de Robinson Crusoé. A  história publicada em 1719 lhe concedeu fama mundial. Nessa noite, procurando conciliar o sono, debruçou-se sobre folhas esparsas do livro. Iniciada a leitura sentiu-se como se estivesse em uma Ilha e passou a apreciar, sozinho, o ambiente que, guardadas as diferenças, também se parecia como uma Ilha. Não via por perto, felizmente, a figura de Sexta-feira, personagem nativo que pudesse lhe servir de companhia.   


Para ele a situação não era literária. Ele também se achava em uma “ilha”. Havia viajado sob neblinas densas e enfrentado ondas bravias nas águas agitadas do cotidiano. Para fugir do frio, trancou com chaves a porta da sua ilha. As paredes, assim como as árvores, turvavam a claridade para olhar mais além. Vasos indiferentes deixavam brotar folhas novas e, às suas costas, um contínuo bater do tique-taque do velho relógio reproduzia as aceleradas e inaudíveis batidas do seu coração. Estava só... assim como o personagem de Defoe.


Para sair daquela Ilha tinha que nadar e nadar muito. Adquirir uma força descomunal e nadar em direção a uma praia qualquer, um porto seguro para refúgio e descanso. Sair daquele lugar estranho! ...Interrompeu a leitura e recordava da adolescência alegre; adulto, seu subconsciente aflorava lembranças, muitas lembranças, algumas felizes e outras de consternação profundas. Nos caprichos da imaginação sobre  a Ilha, acordou assustado em seu quarto, preocupado em não ser o personagem descrito por Defoe naquela ponto isolado do Pacífico. Afinal... logo mais um novo dia! – Na tela da TV um anúncio... “escritor” Ilha lança seu mais novo livro... “as pedras do meu caminho” e se era quem ele estava pensando, o livro deveria ser sobre um pedido de SOS...

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