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O mundo morre na praia

Zarcillo Barbosa
| Tempo de leitura: 4 min

A foto do menino sírio Aylan Kurdi, de bruços sobre a areia, numa praia da Turquia, tornou-se o símbolo mais chocante da atual crise de imigrantes na Europa. A esperança é que as imagens do garoto, bem vestido, como se fosse para uma festa de um coleguinha da escola, cause não somente dó e indignação, mas também vergonha. Quem sabe uma atitude positiva se produza entre os líderes das grandes potências, que há quatro anos sustentam com armas e munições uma guerra que já produziu quatro milhões de refugiados e 230 mil mortos.

A foto jornalística é capaz de milagres por ser um  documento absoluto da verdade, quando não manipulada. É de fácil apreensão porquanto se pretende a simples reprodução do real. Em 1972, a foto de uma menina de 9 anos, correndo em desespero, toda queimada pelo fogo produzido pelas bombas de napalm, foi capaz de induzir a milhões de cidadãos norte-americanos à marcha até Washington pelo fim da guerra do Vietnã.

O chamado “massacre da paz celestial”, em Pequim, mudou a face da China socialista com a foto do chinês, em pé, sozinho em frente a quatro tanques de guerra enfileirados. Premiada com o Pulitzer, a foto de 1993 que mostra o abutre que cerca a criança morrendo de fome, no Sudão, envergonhou as potências econômicas globais, que correram em auxílio das populações assoladas pelas guerras tribais. O autor da foto, Kevin Carter, acabou suicidando-se, roído pela culpa de não ter prestado nenhum tipo de ajuda à criança fotografada. Estatisticamente, o jornalista morre cedo. Dizem que o coração um dia arrebenta por não poder suportar a carga dramática a que assiste ou testemunha, todos os dias.

A charge também é capaz de obter impactos capazes de transformar o mundo. Fiquei comovido com o cartum publicado num jornal europeu, da criança morta na praia, justamente no lugar onde acontece esse idílio do mar com a terra, e a figura de um barquinho de papel enfrentando as ondas. Um poema comovente, um réquiem como aquele que entoava José Hierro: “É uma criança como milhões de crianças, um ser humano que já ri, pergunta e persegue sombras como se fossem brinquedos.” Uma criança morta na praia, em busca de refúgio no mundo, que lhe é negado.


A utopia universalista transformada na exclusão do outro. Não faz sentido que o mundo seja hoje mais globalizado para tudo, exceto para os cidadãos.  É o primeiro dos paradoxos: à medida que os países se entregam de corpo e alma à globalização – o que significa liberdade de movimentos – foram simultaneamente cerrando os dentes e fechando fronteiras aos fluxos migratórios. Mesmo nos Estados Unidos, que se fizeram da miscigenação, do multiculturalismo, o populista Donald Trump sobe nas pesquisas sempre que se atira aos imigrantes hispânicos. Estranho mundo, país esquisito que elege duas vezes um presidente negro e agora ameaça cair nas mãos de um xenófobo troglodita.  A morte de uma criança fugindo da guerra é uma afronta, um grito da vida contra a morte.

O pai de Aylan perdeu a mulher e os dois filhos por não ter conseguido segurá-los entre os dedos, durante o naufrágio. Com a pureza dos simples, explicava que os sírios não querem ir para a Europa. Ele tem uma pátria e gostaria de nela permanecer, se isto fosse possível. Seu único apelo: “Parem a guerra na Síria, apenas isso”. Ficar significa morrer. Partir é um risco assumido pelo desespero de quem nada tem a perder. Aos milhares, em frágeis barcos infláveis batem às portas da Europa, à mercê de traficantes sem escrúpulos e de políticas sem conteúdo. Roland Barthes (Câmera Clara, 1962) dizia que a imagem fotográfica tem o que chamou de “punctum” – uma picada, algo que nos fere, que nos atinge. Nesse contexto o punctum faz o personagem sair da fotografia e atingir vida à parte. Como se a imagem pousasse em nosso consciente para além daquilo que ela dá a ver. Susan Sontag fez uma analogia do ato de fotografar a uma agressão praticada.

A foto do menino na praia foi um soco no estômago da humanidade. A esperança é que passado o incômodo, a energia mítica que provoca o congelamento do tempo não nos faça esquecer a desgraça, a ponto de provocar políticas positivas. Até agora, falaram mais alto os interesses econômicos das indústrias de armamento. Alheios a estes jogos de poder estão milhões de seres humanos que lutam por sobreviver e procuram uma saída dos palcos de guerra. Eles nem querem saber quem é o mau na fita. São várias frentes de guerra com jihadistas, facções islamitas e tropas de Bashar al-Assad. Bombas são despachadas do céu por aviões norte-americanos, franceses e ingleses. Turcos em guerra contra os curdos. Eles, os refugiados,  querem apenas viver.


O autor  é jornalista e articulista do JC  

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