Articulistas

Nacionalismo, patriotismo e outros ufanismos verde-amarelos

Pedro Vinicius Rossi
| Tempo de leitura: 2 min

As expressões nacionalistas atuais, que pareceram a tantos olhos terem surgido de formas espontâneas e ponderadas à uma vontade libertadora tão avessa, definem-se numa mera expressão e identificação comezinha a uma realidade desconexa. Aquela necessidade de se rememorar toda a falsidade do autoritarismo brasileiro, os esforços em relegar a migrantes e imigrantes certa culpabilidade ou inferioridade, certos revanchismos e derrotismos de algumas tais lideranças demagógicas e políticas, e alguns bodes expiatórios baseados em crises socioeconômicas contextuais ou distintas, cunhados sob um discurso de fomento a inimigos – reais ou imaginários ou políticos – que viriam a ameaçar uma sobrevivência nacional qualquer.


Esse patriotismo exacerbado o qual acompanhamos, passiva ou ativamente, pela televisão ou pelos jornais, ou estampado nas capas das revistas em tons verde-amarelos e com palavras de ordem, expressa em seu contexto uma total negação e espúrio sentimento para com aquele – ou aquilo – que lhe é diferente (ou mesmo indiferente a uma identidade construída e/ou outorgada). Rotineiramente, numa definição de amor ao país, sob a tutela de algumas tradições quaisquer, ou em referência a uma própria história mal contada, nos deparamos com eventuais manifestações saudosas à uma devoção caduca, ademais incoerente com os próprios tais princípios democraticamente propagados pelas próprias em seus gritos de amor e ódio nacionalistas e patrióticos.


Um ufanismo que só batia as portas nas vésperas de algum jogo de futebol superestimado, ou coisa assim, onde o orgulho de se vestir e se pintar de verde e amarelo estavam estampados pelo simbólico, num esporte de superioridade quase hegemônica e culturalmente conectado a esse sentimento de amor à pátria. Quisera acreditar que esse patriotismo temporário era uma forma de controle midiático que supunha a uma certa identidade nacional, e que se bastava nisso. Mas a necessidade de se inquirir ou delegar uma certa paixão pela nação fez ressurgir algumas palavras de ordem, entre outras frases feitas de sonoridades decrépitas, que determinaram, a uma certa parcela populacional temerosa, um conservadorismo regado por uma boa safra de ódio reacionário.


Nove bons anos se passaram desde que adentrei ao sambódromo bauruense vestindo uma farda camuflada, segurando um velho fuzil sobre os ombros, com botas seminovas de couro reluzente muito bem engraxadas. Aquém dos familiares que assistiam contentes e orgulhosos aquela marcha do 7 de setembro em 2006, outros mais administravam (e ainda administram) seu orgulho, e certas noções identitárias outras, sob a égide e o símbolo das armas e da disciplina autoritária militar. É sempre nessa data expoente que se rogam as mais intensas preces à uma juventude nacionalista, pseudo-autocrática e patriótica, comandada por velhos rabugentos e bem aprumados, em que certos “cidadãos de bem” e outros “de bom caráter” prestam suas agora tão habituais devoções – em verde e amarelo.


O autor é sociólogo, mestrando do curso de Ciências Sociais pela Universidade Estadual de Londrina/PR

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