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Vencer o mar ou morrer

Roberto Magalhães
| Tempo de leitura: 2 min

Se ficar o bicho pega, se correr o mar engole. Nada contra o mar, tudo contra os homens. A imagem do menino sírio Aylan Kurdi, três anos, recolhido morto do mar pelos braços de um policial  é uma violenta bofetada na cara e na alma de cada um de nós.

A foto escancara a dramática situação de milhares de  refugiados que tentam fazer do mar um caminho de salvação. A Europa, o destino libertador. O pequeno Aylan, engolido pelo sal, morreu sem nada entender. Mas quem entende? Como entender a tragédia dessas famílias inteiras que se lançam nas águas revoltas em precários botes infláveis ou de madeira porque se ficarem o bicho pega. Pega e mata. Duas mil e seiscentas pessoas já morreram tentando chegar à Europa pelo mar.

Esse bicho monstruoso, claro, é o bicho-homem, bicho intolerante que mata em nome de  Deus,  bicho jihadista que decepa cabeças lendo versos religiosos, o livro sagrado sempre nas mãos. Ah, esqueci um detalhe, o dono do barco,  também   homem-bicho, cobra dos miseráveis apenas 10 mil reais pela travessia. 

Senan Nabir,  51 anos, outro sírio em fuga.  Um mergulho desesperado, sete horas nadando, vencer o mar ou morrer.  Recolhido das águas pela guarda costeira turca, reagiu: “não me levem de volta, prefiro morrer aqui mesmo. Que diferença faz morrer na Síria ou no mar?” 

Tão perigoso quanto o mar são os caminhões. Setenta e um corpos apodrecendo, provavelmente sírios, foram encontrados recentemente no compartimento “refrigerado” de um caminhão abandonado numa estrada da Áustria. O bicho-homem  que entocou os miseráveis no caminhão - claro a preço justo - fugiu quando percebeu a tragédia. Todos morreram asfixiados, cinco pessoas por metro quadrado...

Leio, agora, que Chris Cristh, candidato republicano à presidência dos Estados Unidos, promete, vencendo as eleições, copiar o modelo de entrega  e de rastreamento de pacotes adotado pela empresa FedEx. Para quê? Para perseguir, encontrar e deportar imigrantes ilegais nos EUA. Para esse bicho-homem, gente desesperada, pedindo socorro, não passa de pacote, reles mercadoria. Não estaria ele pensando em imprimir no corpo desses miseráveis o  código de barras?

Leio, agora, que na Alemanha aumenta consideravelmente o número de pessoas que abrem suas casas para acolher imigrantes no estilo “Airbnb”, serviço on-line comunitário para reserva de acomodações. Também um site radicado em Berlim, o “Refugees Welcome” (Bem-vindos Refugiados),   já conta com 780 pessoas inscritas para acolher tanta gente desesperada.

Bom constatar que o mundo não é feito só de homens-bicho. Existem, ainda, homens-gente. O problema é a desigualdade numérica. Culpa da matemática.

 

O autor é professor de redação e membro  da Academia Bauruense de Letras - ABL 

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