Se ficar o bicho pega, se correr o mar engole. Nada contra o mar, tudo contra os homens. A imagem do menino sírio Aylan Kurdi, três anos, recolhido morto do mar pelos braços de um policial é uma violenta bofetada na cara e na alma de cada um de nós.
A foto escancara a dramática situação de milhares de refugiados que tentam fazer do mar um caminho de salvação. A Europa, o destino libertador. O pequeno Aylan, engolido pelo sal, morreu sem nada entender. Mas quem entende? Como entender a tragédia dessas famílias inteiras que se lançam nas águas revoltas em precários botes infláveis ou de madeira porque se ficarem o bicho pega. Pega e mata. Duas mil e seiscentas pessoas já morreram tentando chegar à Europa pelo mar.
Esse bicho monstruoso, claro, é o bicho-homem, bicho intolerante que mata em nome de Deus, bicho jihadista que decepa cabeças lendo versos religiosos, o livro sagrado sempre nas mãos. Ah, esqueci um detalhe, o dono do barco, também homem-bicho, cobra dos miseráveis apenas 10 mil reais pela travessia.
Senan Nabir, 51 anos, outro sírio em fuga. Um mergulho desesperado, sete horas nadando, vencer o mar ou morrer. Recolhido das águas pela guarda costeira turca, reagiu: “não me levem de volta, prefiro morrer aqui mesmo. Que diferença faz morrer na Síria ou no mar?”
Tão perigoso quanto o mar são os caminhões. Setenta e um corpos apodrecendo, provavelmente sírios, foram encontrados recentemente no compartimento “refrigerado” de um caminhão abandonado numa estrada da Áustria. O bicho-homem que entocou os miseráveis no caminhão - claro a preço justo - fugiu quando percebeu a tragédia. Todos morreram asfixiados, cinco pessoas por metro quadrado...
Leio, agora, que Chris Cristh, candidato republicano à presidência dos Estados Unidos, promete, vencendo as eleições, copiar o modelo de entrega e de rastreamento de pacotes adotado pela empresa FedEx. Para quê? Para perseguir, encontrar e deportar imigrantes ilegais nos EUA. Para esse bicho-homem, gente desesperada, pedindo socorro, não passa de pacote, reles mercadoria. Não estaria ele pensando em imprimir no corpo desses miseráveis o código de barras?
Leio, agora, que na Alemanha aumenta consideravelmente o número de pessoas que abrem suas casas para acolher imigrantes no estilo “Airbnb”, serviço on-line comunitário para reserva de acomodações. Também um site radicado em Berlim, o “Refugees Welcome” (Bem-vindos Refugiados), já conta com 780 pessoas inscritas para acolher tanta gente desesperada.
Bom constatar que o mundo não é feito só de homens-bicho. Existem, ainda, homens-gente. O problema é a desigualdade numérica. Culpa da matemática.
O autor é professor de redação e membro da Academia Bauruense de Letras - ABL