Há mais de 30 anos no universo da moda, Paulo Borges está à frente da organização e disseminação de uma cultura de moda e design no país. No currículo, além da experiência imensurável e da vasta publicação sobre o assunto, é fundador do São Paulo Fashion Week, a maior semana de moda do hemisfério sul, presidente do Instituto Nacional de Moda e Design (IN-MOD) e CEO da empresa Luminosidade, plataforma de conteúdo responsável pela criação do calendário da moda brasileira e seus principais eventos.
Juntamente com o estilista Reinaldo Lourenço e o apresentador do “Esquadrão da Moda” Arlindo Grund, Paulo abriu o Fashion Tour 2015 em Bauru no dia 10 de setembro. O evento inédito na região, que integra as comemorações dos 20 anos do São Paulo Fashion Week, segue até dia 20 com duas exposições no Boulevard Shopping.
Antes de mediar o bate-papo com os outros dois ícones da moda brasileira e a plateia de representantes do segmento em Bauru e região, Paulo conversou exclusivamente com a reportagem do Jornal da Cidade.
Logo de cara ele fez questão de dizer que se sentia em casa. “Sou de São José do Rio Preto e vim muito a Bauru na minha adolescência. Estar no interior é falar da minha própria história”. Confira o restante da conversa.
Jornal da Cidade - Há diferença entre moda para o interior e os grandes centros?
Paulo Borges - “Moda é moda em qualquer lugar. Quem cria e pensa moda não faz em função de onde ele está, pensa pelo desejo naquele momento. Há estilistas que se inspiram em coisas muito próximas da sua vida e às vezes completamente distantes. A liberdade criativa do estilista é o que torna a moda algo tão mágico e instigante.
JC - E as tendências?
Paulo Borges - O mundo e o Brasil têm mudado muito e a moda, consequentemente, também. Não existem mais tendências, porque hoje tudo é possível. Vale muito mais o desejo criativo de um designer, de um estilista do que de um caminho de tendência. E ainda mais importante que a opinião desses especialistas é a de quem consome.
JC - Então a moda está mais acessível?
Paulo Borges - Há mais oferta e gente fazendo moda, mais possibilidades e diversidade. A Internet faz com que milhões de pessoas tenham acesso à moda simultaneamente e, por isso, ela teve que se abrir para atender a uma demanda heterogênea. A moda, um dia, foi para uma elite, tanto econômica quanto cultural. Isso ficou no passado. Hoje ela é completamente diversa e ampla, vai da alta cultura ao fast-fashion (termo usado para designar a moda dos grandes magazines). E tudo isso é moda, tudo é possível e as misturas são sempre as mais interessantes.
JC - Algumas celebridades estão “fugindo da moda” e apostando no “muito básico”...
Paulo Borges - O ‘não-moda’ é uma moda. Todo indivíduo pratica um código, uma comunicação. O que faz, fala, usa, come, os ambientes onde vai, seus gostos e preferências: tudo isso vira um comportamento que está associado a uma moda.. É uma atitude que representa um estilo e um estado. Numa sociedade moderna, conectada e ativa economicamente como é a nossa tudo é moda. Os valores, códigos e sentido é que mudaram.
JC - Qual a influência do São Paulo Fashion Week no Brasil e no mundo?
Paulo Borges - Enquanto SPFW nós influenciamos a criar um protagonismo para a moda brasileira, a indústria, os estilistas, para o negócio todo no Brasil. A gente ainda vende pouquíssimo para o mundo. Isso está mais atrelado às condições que o país vive que aos talentos e à criatividade da moda brasileira. Nossa infraestrutura, legislação, burocracia, taxas e impostos torna nosso produto, em termos de competitividade global, muito caro. E isso prejudica. Somos percebidos, desejados, mas pouco consumidos.
JC - Que balanço faz desses 20 anos do SPFW?
Paulo Borges - Sem dúvida o SPFW tem um legado sobre o protagonismo brasileiro pela capacidade de dar vitrine e criar desejo sobre a produção do Brasil. É um processo de construção e aprendizado sobre o calendário de produção e consumo, o processo criativo e quais as criações dos estilistas brasileiros. É uma responsabilidade do projeto SPFW. Como consequência, houve uma transformação na sociedade brasileira do ponto de vista da cultura, da educação, do profissionalismo, da organização e da qualidade da moda brasileira. Ao expor sua coleção, as grifes estão se superando, se esmerando em patamares mais altos de qualidade e competição global. É um bem para o país como um todo.
JC - A crise econômica está atingindo a moda?
Paulo Borges - Claro, porém, são tantas indústrias e negócios que há um movimento próprio, privado e dinâmico que não depende dos erros e acertos do governo. Andaria melhor, com mais velocidade e firmeza se o governo andasse a favor da indústria, mas anda. As crises fazem ajustes, recompõem metas, reorganizam custos e preços.
JC - Qual a importância da moda na economia brasileira?
Paulo Borges - Vou citar dados do ano passado. A moda é a terceira maior economia do país, responsável por 18% da economia industrial; é a indústria que mais contrata mão de obra feminina, produz mais de 50 bilhões de dólares e mais de 2,2 milhões de empregos. Sendo uma economia de cauda longa, tem uma capilaridade fenomenal, mas ainda subutilizada no país pelos projetos de inclusão social. A moda tem mais de 300 mil empresas, entre micro e pequenas, médias e grandes. É uma teia social poderosa, que movimenta a economia formal e informal de uma maneira muito dinâmica”.
Fashion Tour em Bauru
Até dia 20 de setembro, no horário de funcionamento do Boulevard Shopping, o público poderá ver gratuitamente as exposições “20 anos de Moda Brasileira”, com looks assinados por grandes estilistas e depoimentos de profissionais da área, e “Sonhando Acordado”, que traz 20 anos de histórias e personagens dos bastidores da São Paulo Fashion Week, em fotos de Bob Wolfenson.
“As pessoas devem ver as exposições porque se trata de história, de um legado de transformação cultural, criativa e econômica. Quando você olha para a história da moda está olhando para a própria história. Lá tem um pouco do que foi feito no país nesses 20 anos em termos de criatividade, designer de moda e comportamento”, destaca Paulo Borges.