Em 1704, proveniente do mundo árabe, a historia das ‘Mil e Uma Noites’ chegou a Paris. A partir daí, gerações e gerações se imaginaram a visitar o mundo num Tapete Mágico que nessa história fora adquirido no mercado pelo príncipe Ali. Hoje em dia nosso Tapete Magico é a Internet. Através dela, aqui de Bauru, visitamos a Arábia, Portugal, Alemanha, Espanha, Japão e França. O riso governa em todas elas, com exceção, a nosso ver, da França. O sorriso pode ser interpretado de muitas maneiras. O grande poeta Fernando Pessoa citou-o assim: ‘Dá-me um sorriso dos teus no domingo, para na segunda eu me lembrar’. Vejamos a fala do inigualável Pablo Neruda: ‘Negue-me o pão, o ar, a luz, a primavera, mas nunca o teu riso, porque então morreria’. Nas Alegres Comadres de Windsor, Shakespeare coloca na boca do personagem Page esta referência ao hoteleiro: ‘Quando ele está alegre e rindo, é porque tem licor na cabeça e dinheiro na bolsa’. E nosso inimitável Cruz e Souza ordenou: ‘Gargalha, ri, num riso de tormenta, como um palhaço que desengonçado, nervoso, ri, num riso absurdo, de ironia e de uma dor violenta’.
O povo também colabora com seus provérbios. Muito riso, pouco juízo. O riso sobra na boca do tolo. Pranto de herdeiro é riso sorrateiro. Riso pronto, miolo tonto. A curiosidade sobre o riso é antiga. Comenta-se que tanto Platão como Aristóteles viam um sentimento de superioridade no riso, pelo qual expressa-se desprezo pelos infelizes dos outros. Mais modernamente, o filosofo Kant dizia que uma das funções do riso é fazer massagens no diafragma e intestinos para o bem da saúde. No século 20, Bergson dizia que uma das funções do riso era romper com o automatismo mecânico de nosso dia a dia. Além disso, ele relembra o fato de o riso ser um ato unicamente humano, como afirmava o médico François Rabelais (1494 -1553), que dizia: ‘O riso é próprio do homem’.
Na realidade, somos os únicos a rir de alguma coisa, não sé pela origem cerebral de nosso riso, como pelo fato de somente os humanos possuírem o músculo Risório de Santorini, que nos distende a boca durante um sorriso. As hienas e bonecas mecânicas parecem rir, mas este esgar que pretende lembrar um sorriso não é intencional e não vem do cérebro e, além disso, é sempre o mesmo. O riso humano, segundo o escritor Leon Tolstoi, autor de Guerra e Paz, apresenta 97 variedades, de acordo com o estado emocional de quem está rindo. Especialistas dizem que o riso é contagioso. Por uma série de fatores, incluindo os educacionais, todos nós rimos. Vem de nossa infância aquela pressão dos adultos para que façamos uma boca de riso nas fotografias. Rir é bom, mas tomemos cuidado para que nem a parte mínima de nosso riso porventura ouse caminhar ao lado da estrada da minifraude. Seria um infortúnio para os dignos e esplendorosos risos que brotam em nossos cérebros.
O autor é oftalmologista com pós-graduação em Saúde Pública pela Universidade São Camilo