O neurocientista norte-americano Daniel Levitin está em plena divulgação mundial de seu livro “A Mente Organizada” (Editora objetiva). O que li sobre a obra é coincidente com que conversei há dias com o escritor Rafael Gallo – ele também em fase de lançamento, de seu primeiro romance, “Rebentar”. Em resumo, é o seguinte: teria nossa cabeça (que é a mesma, do mesmo tamanho, há tempos) condições para armazenar tantos dados acelerados como vem ocorrendo impiedosamente?
Segundo o neurocientista, nossa estrutura fisiológica é idêntica à de fases remotas e, dessa forma, o exagero vigente vira um problema. A orientação do pesquisador é: deixe a mente vadiar. Deixe espaço na mente. É preciso, inclusive, esvaziar a memória de vez em quando. Estar mais livre mentalmente para relaxar, criar e aprender.
De fato, e o tema vem se tornando recorrente – e seguimos aceitando passivamente o bombardeio de “atrações virtuais” sem questionar. Em outras palavras: a atenção fragmentada, voltada a mil coisas ao mesmo tempo na frente do computador ou do smarthphone, viraria desatenção, vazio e desapego.
Gente: a velha cachola aqui dentro (e aí dentro) não é diferente da de dois séculos atrás. O que fazer? A tendência, creio, é nos tornarmos mais seletivos após essa infinita farta oferta de tudo. Isso se interessar apreender algo, fixar o que vemos e ouvimos, aglutinar. Se a busca frenética, no entanto, for só para escapismos, amortecimentos mentais e certeiro esquecimento, então basta continuar clicando e dedando compulsivamente.
Talvez, daqui a algumas gerações, o cérebro aumente, fiquemos cabeçudos como os seres do futuro ou de Marte, e aí sim poderemos transformar a cabeça na lata do poeta, onde tudo cabe. Até lá, pelo que aponta a neurociência, estaremos ainda enfronhados numa certa autoilusão desgovernada. Achando que estamos no controle, só que não.
O autor é editor executivo do JC