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A foto do fato

Alexandre Albertini Benegas
| Tempo de leitura: 3 min

Impensável subestimar o impacto da recente foto  divulgada mundialmente pela agência Reuters. Num primeiro momento, um policial turco depara-se com uma criança de bruços. De camisa vermelha e bermuda azul, de bruços está próximo à linha da água. No segundo momento, o policial é visto carregando o corpo para fora da praia. O fato em forma de ferida, agora exposta, é a representação de uma Europa em crises migratórias.


O garoto  Aylan  Kurdi, 3 anos, era uma das 12 pessoas mortas na travessia marítima em direção à ilha grega de Kos. Curdo, Aylan fugiu de Kobani, cidade síria tomada pelo febril Estado Islâmico. Este que semelhante ao DNA de uma célula cancerígena, cuja meta é reproduzir-se sem parar, amplia suas violentas ações, arregimentando jihadistas num crescimento assustador. Noticia-se que  o YPG, mais provável inimigo do E.I. na região, está sendo bombardeado pelo exército turco do primeiro-ministro Recep Erdogan. Este, na pretensão de um aliado do Ocidente, na luta contra o grupo radical elevado à categoria de nova ameaça global, aproveita-se, é claro, do aval da Casa Branca, para despejar suas bombas sobre os curdos.


Embora a informação geográfica desprovida esteja de gerar manifestação na opinião pública, a foto, do garoto afogado, comparece para superar o texto, o discurso em curso. A fotografia, em sua importância, uma vez mais, ganha a repercussão. E por que a imagem? Retrato verbal de algo ou de alguém, congela a experiência vivenciada num espaço de tempo irrestrito à nossa imaginação. Sensibiliza. Humaniza. Influencia na dinâmica da História. Impossível esquecer, em 1972, a foto da menina vietnamita correndo nua, após o lançamento das bombas perto de Trang Bang. A consequência  imagética, na época, foi o favorável fortalecimento do movimento antiguerra, conquistado posteriormente pela repercussão.


Inaceitável também o caso da jovem Jyoti  Pandey, de 23 anos, vítima de estupro e espancamento  coletivos, em 2012,  dentro de um ônibus em Nova Déli, capital da Índia. As fotos ganharam as páginas e redes mundiais. Nova repercussão: governo endureceu as leis contra a violência sexual, reforçando segurança para as mulheres e justiça para os agressores. Por isto, a fotografia impacta. É pedra, ou melhor, é pedrada e o alvo longe estaria de ser outro: o conformismo à banalização da vida. A bendita- ou seria maldita? - imagem  representa, assim, um pichador prestes a escandalizar, com as verdades incômodas, os brancos muros da  nossa consciência moralizante.


Dispensável, por outro lado, restringir a comoção da fato à região oriental. Também existem  Aylans no Brasil. A insegurança pública de mãos dadas com a irresoluta violência urbana  e outras delinqüências sociais afogam diariamente milhares de brasileiros num mar turvo do maucaratismo  proposital. Se comprovado está a imagem valer mais que palavras, caio em inutilidade com este projeto de reflexão. Afinal, refugiar-me em refugiados históricos, seria similar a transformar a notícia factual em fato noticioso. Ainda assim, a foto é provocativa. Esgrima contra minha aguda percepção. O garoto  afogado  mergulha em  minha visão paternal a posição costumeira do sono de um  bebê. Deitado, de bruços num berço, à espera de caloroso aconchego. Apenas isto e nada mais.  


O autor é professor universitário de Língua Portuguesa, especialista em Redação, doutorando em Letras pela Unicamp, alexandrebenegas@gmail.com

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