Tribuna do Leitor

Redes sociais e a cultura de rede

Gerson Vasconcelos Luz
| Tempo de leitura: 3 min

                            

O advento da internet e o fenômeno das redes sociais intensificou a elaboração, publicação e circulação de ideias. Houve uma significativa abertura à democratização do poder de voz do povo. No mundo virtual a liberdade de expressão parece ter encontrado seu lugar ao sol. Entretanto, se por um lado agora todos podem falar, por outro nem tudo que se fala nessa espécie de “ágora virtual” precisaria ser dito.  

Umberto Eco, um dos mais refinados pensadores vivos, autor de obras como O Nome da Rosa e O Pêndulo de Foucault, é, sem dúvidas, o tipo de pessoa que comprovadamente tem algo a dizer e precisa falar. O que não significa que tenha razão e esteja certo sobre tudo o que pensa, ou que devemos concordar com tudo que ele diz; mas é sempre bom prestar atenção a certos ditos e escritos dos nossos intelectuais. No caso em questão, Eco disse recentemente que as redes sociais dão o direito à palavra a uma “legião de imbecis” que antes falavam apenas “em um bar e depois de uma taça de vinho, sem prejudicar a coletividade”.  

Diante disso, vem à mente uma pergunta automática: qual é o problema disso? Ora, por que o “imbecil” não pode ter voz ativa? Por que tem (ou temos, dependendo do que Eco considera “imbecil) que ficar calado? Ao que parece, a preocupação de Eco é muito mais com a qualidade que com a quantidade. “Normalmente, eles eram imediatamente calados, mas agora eles têm o mesmo direito à palavra de um Prêmio Nobel” no sentido agentes portadores de verdades. A crítica de nosso refinado pensador italiano é complexa e não se aplica a tudo e a todos na rede, mas serve como reflexão. Devemos ser mais seletivos, pensar e repensar, ver e rever o que estamos pensando, escrevendo, dizendo e reproduzindo nas redes.

Pierre Lévy, no livro Inteligência Coletiva, comenta que “A cultura da rede ainda não está estabelecida, seus meios técnicos encontram-se na infância (...)”. Ressaltando: “infância”. Há, notadamente, uma cultura de rede em crescimento do pueril, para adolescência e mundo adulto. Ao observar o comportamento virtual das pessoas nas redes sociais, importante meio de interatividade usado em grande escala na atualidade, constata-se facilmente a análise do autor francês.

Ao que parece, o problema não é que a rede deu voz a uma legião de imbecis, como afirma Umberto Eco, e sim que estamos em fase de crescimento – claro que a colocação do italiano se aplica a muitos casos. A possibilidade de uma existência virtual é fascinante. Embora a rede ainda esteja na infância do ponto de vista tecnológico e em termos de rede cultural, como coloca Pierre Lévy, é preciso que tenhamos consciência de adulto e contribua para o uso responsável, produtivo e positivo. Pensar é livre, publicar o que se pensa deve ser melhor ponderado pelos agentes pensantes. Será que todos precisam saber o que pensamos? Às vezes o que pensamos só tem validade para nós mesmos. Pensemos nisso!

 

O autor é professor de Filosofia - Universidade Estadual do Norte do Paraná - UENP

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