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Febre alta

Reinaldo Cafeo
| Tempo de leitura: 3 min

Se pensarmos nos mercados acionário e cambial como se fossem o corpo humano, ambos indicariam se este corpo tem ou não alguma doença, sendo a febre o parâmetro. Isso ocorre porque estes mercados operam na dinâmica do dia a dia. As variáveis econômicas e políticas mexem com os nervos de investidores e especuladores, que ao fazerem a leitura dos principais indicadores de desempenho econômico, combinados com o ambiente político, decidem em que direção querem seguir. Quando, por exemplo, a bolsa de valores despenca e o dólar sobe, como observado nestes últimos tempos, está mais que evidenciado que o corpo chamado economia brasileira não vai bem. 

Na prática, por inúmeras razões, inclusive incompetência, a economia brasileira tornou-se um paciente com problemas de toda ordem. Este paciente tem uma doença crônica cujos sintomas foram “camuflados” nestes últimos anos, que é o descontrole das contas públicas. Os remédios aplicados esconderam causas primárias, e estes não fazem mais efeito. Isso quer dizer que o paciente sofre de problema na sua estrutura corporal: incapacidade de gerenciar as contas públicas, que força a elevação dos juros, que só faz crescer o endividamento público, gerando desconfiança de toda ordem.

Se não bastasse este problema crônico, ainda o corpo chamado economia brasileira é incapaz de equilibrar o mercado de bens e serviços. Tal desequilíbrio não permite que os preços se mantenham comportados e, pasmem, mesmo tendo a experiência de inflação nas alturas, com a implementação de inúmeros planos econômicos tais como o Cruzado, Bresser, Verão, Collor e tendo encontrado a fórmula para o controle eficaz da inflação no plano Real, a péssima atuação do governo federal nos últimos anos conseguiu deixar os preços desgarrarem. Paciente debilitado ainda mais.

Em meio a tantas “doenças”, ainda temos aqueles que conseguem deixar o paciente mais debilitado. Em vez de darem um tempo para que alguns remédios tenham seu efeito, atuam no sentido contrário, isso está refletido no conturbado ambiente político. Base aliada que de aliada tem pouca coisa, uma oposição confusa, defendendo pontos que eram contrários no passado, enfim, fazem de tudo para que o paciente seja atendido em condições precárias, adiando intervenções que permitam atacar as causas dos problemas.

Se modernamente as economias são avaliadas pela austeridade fiscal, metas de inflação que são cumpridas e câmbio flutuante, fica evidente que ao não cumprirem as duas primeiras premissas o câmbio é consequência, portanto, o dólar ter ultrapassado pela primeira vez na historia do Real a barreira dos R$ 4,00 é somente um efeito de toda a incompetência governamental em lidar com o ambiente econômico e político. Enquanto isso tudo acontece, o emprego vai rareando, a informalidade crescendo, penalizando as pessoas mais humildes, que estão atônitas sem entender porque tudo isso vem ocorrendo, atingindo as empresas de todos os portes, levando a queda nas vendas, perda de margem de lucro e elevação do endividamento. Todos perdem, inclusive o próprio setor público em todas suas esferas.

Como na vida, todo cuidado é pouco, e a febre nas alturas exige ações firmes, combinadas, pensando em salvar para depois curar definitivamente o “paciente” economia brasileira. É imperativo que prevaleça o interesse coletivo em detrimento aos interesses pessoais (que hoje dão o tom na condução política deste processo). Algo tem que ser feito para evitar que o paciente venha a óbito. A febre tem um limite do suportável, e este limite está prestes a ser ultrapassado.

 

O autor é economista e articulista do JC

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