Há décadas, estamos lutando para melhorar os sistemas de educação básica no país. Aumento de verba, introdução de novas estratégias de ensino até hoje se revelaram ineficazes como soluções para problemas crônicos. Agora, medidas do governo ameaçam diminuir drasticamente os recursos disponíveis para os sistemas de educação – básica, profissional e continuada – direcionados à formação de trabalhadores e seus filhos. Desconsidera-se a história e o longo processo de evolução desses sistemas e os resultados até hoje alcançados.
No início da década de 1940, estava sendo organizado o Senai, como uma das condições necessárias para a consolidação da indústria paulista. Os empresários, em especial Roberto Simonsen, reconheciam a importância da formação profissional e da educação continuada. Esse reconhecimento revelava uma posição extremamente arrojada, levando-se em consideração as condições em que então se vivia.
O Brasil de 1940 era rural, com apenas 31% da população vivendo em cidades. A taxa de analfabetismo era 56,8%. No estado de São Paulo, onde o processo de industrialização era mais expressivo, era muito grande o número de imigrantes, que chegavam sem dominar a língua portuguesa e sem ao menos conhecer os costumes locais.
Era uma utopia, um projeto quase impossível, transformar em trabalhador da indústria o jovem que chegava do meio rural e de outros países, sem escolarização e sem conhecer o que era o mundo do trabalho nas cidades.
O governo federal de então e os empresários se uniram e criaram o Senai. Na ocasião, além da formação profissional, os trabalhadores da indústria recebiam também educação básica, noções de saúde, participação em atividades culturais e de lazer. Após quatro anos, foi criado o Sesi, ficando o Senai direcionado para a formação profissional.
As mesmas missões atribuídas para Senai e Sesi em relação à indústria foram estendidas para Senac e Sesc, no comércio e serviços. E, ao longo do tempo, outras entidades foram criadas, para outros segmentos da economia. Todas foram incluídas no que passou a se denominar “Sistema S”. Nos últimos 70 anos, por cumprirem suas missões de preparação do trabalhador para a vida e para o trabalho, Sesi e Senai contribuíram efetivamente para a indústria se instalar, crescer, diversificar, propiciar riqueza para São Paulo e para o Brasil. Jovens foram formados, conseguindo empregos na indústria e conquistando os meios para integração social de suas famílias.
O Senai é reconhecido como um sistema de formação profissional de excelência no Brasil e no exterior. O Sistema Sesi-SP de Ensino – Movimento de Aprender já extrapolou as escolas do Sesi e hoje já é modelo para muitas redes de ensino municipais. Uma das condições para o sucesso foi Sesi e Senai terem uma fonte de recursos estável, por meio de uma contribuição estabelecida na Constituição Federal. Com esses recursos, sempre foi possível matricular alunos em cursos de curta e de mais longa duração. No caso da educação básica oferecida pelo Sesi-SP, um aluno matricula-se no ensino fundamental em período integral, com duração de nove anos. No caso do ensino técnico e tecnológico, os cursos do Senai têm duração de dois anos ou mais.
Essa confiança na receita constante e contínua ameaça quebrar-se abruptamente. Ao divulgar uma proposta de corte de 30% da receita direcionada ao Sistema S – em que se incluem Sesi e Senai – como manter compromissos assumidos com alunos? Como será garantida a preparação de jovens, tão necessária para ingresso no mundo do trabalho? Se a indústria não tiver profissionais neste momento, como fará para recuperar seu espaço na economia brasileira e no comércio internacional?
É tempo de se ter consciência que destruir é fácil, mas reconstruir é extremamente difícil. É tempo de políticos e governantes agirem analisando consequências de suas decisões, a médio e longo prazos. É tempo de o país ter uma política de estado, que fortaleça sistemas de educação que se revelem eficientes e que sejam fundamentais para as pessoas, para a economia, para a sociedade brasileira.
O autor é diretor regional do Senai-SP e superintendente do Sesi-SP