No imaginário social ainda predomina a imagem do “índio” de 1500, aquele estereotipado e exótico. Muito além da curiosidade e do hábito de explorar sua cultura e imagem, a exposição Encontros em Araribá faz um retrato realista e atual em 24 fotos de Aline Maffi, cientista social, especialista em antropologia e professora.
Aberta hoje, às 20h, a mostra estará disponível para visitação do público até 25 de outubro, em um dos vagões na gare da Estação Central, ao lado do museu ferroviário.
Na ocasião será distribuído o fanzini ‘Dormentes: trilhando a memória do esquecimento’, também com fotos de Aline, realizado na oficina de fotozini ministrada pela jornalista Amanda Rocha.
Ao trabalhar a etnofotografia, a especialista visa desconstruir a imagem deturpada e despertar a sociedade para as questões indígenas, como o genocídio e as mudanças na legislação da demarcação de terra.
Também faz uma crítica à morte dos indígenas durante a construção da estrada de ferro e reitera a necessidade de fomentar as memórias destes povos, os primeiros habitantes da região.
“A intenção é revisitar a história, a identidade e as tradições, mostrar a cultura indígena dentro de um contexto e contribuir para que essas etnias, tão próximas, sejam conhecidas”, explica Aline.
A iniciativa, que tem o apoio da Secretaria Municipal de Cultura, do Museu Ferroviário e da Ferrovia Para Todos, é uma realização da Associação Renascer o Apoio à Cultura Indígena (Araci).
A exposição, que foi aberta nesta sexta, integra a programação da 9.ª Primavera dos Museus, denominada Museus e Memórias Indígenas.
Confiança e cultura
Resultado de diversos encontros em dois anos de estudo (e conquista da confiança) na reserva indígena Araribá, no município de Avaí (39 quilômetros de Bauru), as imagens remetem a cenas do cotidiano da etnia Terena, realizadas na aldeia Kopenoti.
O lúdico brincar na água, a Dança da Ema (kohixoti kipaé), imagens do trabalho e do lazer, entre outras temáticas, compõem a narrativa visual etnofotográfica de “Encontros em Araribá”.
“As visitas passam rápido, mas os encontros são sempre transformadores. Este trabalho me convida a continuar”, partilha a pesquisadora Aline Maffi.
De acordo com ela, este tipo de fotografia não traz apenas o deleite estético, mas comunica questões sociais, as identidades e as memórias de etnias e populações específicas.
Neste caso, trata-se ainda um convite à reflexão, pois as questões indígenas estão atreladas à história de Bauru e região, mas pouco se conhece e se fala sobre o assunto.
“Algumas populações foram dizimadas para a construção da ferrovia e, hoje, ela está abandonada. Que progresso é esse? Um progresso desmedido que não olha para o outro nem exercita a alteridade”, questiona Maffi.
Sobre a Araci
A Associação Renascer o Apoio à Cultura Indígena (Araci) está sediada na antiga estação ferroviária e atua na difusão e fortalecimento das culturas indígenas em Bauru e região.
Seu presidente, o professor Irineu Nje’a, entre outros trabalhos, visita escolas e dá palestras sobre a diversidade étnica e os mitos envolvendo os povos indígenas.
Para ele, a exposição Encontros em Araribá é uma excelente oportunidade de crianças, jovens e adultos saberem mais sobre o indígena contemporâneo.
“Quando a sociedade pensa no indígena, ‘coloca tudo no mesmo saco’, mas são 305 etnias no Brasil e aproximadamente 270 línguas. É preciso superar o preconceito e a desinformação que estão arraigados no país”, ressalta.
Serviço
A exposição Encontros em Araribá acontece de 25 de setembro a 25 de outubro na gare da Estação Central, ao lado do Museu Ferroviário, na Praça Machado de Melo, em Bauru. Horário de funcionamento: de terça a sexta-feira, das 8h30 às 12h e das 13h às 17h30; sábado das 9h às 13h. A entrada é franca.