Bairros

Blecautes longos viram "rotina" e população acumula prejuízos

Marcus Liborio
| Tempo de leitura: 4 min

Fotos: João Rosan
No Horto Florestal, Irani perdeu insulina por conta do apagão
Eliane mostra a geladeira: leite desnatado para o filho estragou

Dos 4.500 imóveis que ficaram “no escuro” após o temporal de domingo em Bauru, quase 1 mil (4 cerca de mil pessoas, considerando a média de quatro moradores por residência) ainda permaneciam sem energia nessa terça-feira (29) até o meio-dia, segundo a CPFL Paulista.

No Horto Florestal, o problema só foi solucionado às 16h, ou seja, o apagão nesta região perdurou por 42 horas, já que as rajadas de vento de até 70 quilômetros por hora e a chuva de 19,3 milímetros ocorreram por volta das 22h de domingo.

Aliás, os blecautes de longa duração viraram rotina no município. Conforme levantamento feito pelo JC, a população enfrentou ao menos quatro apagões nessas proporções somente neste ano: em janeiro, maio e dois neste mês - em um intervalo de apenas 15 dias.

Nessa terça, oito famílias que vivem no Horto Florestal de Bauru, na Vila Cardia, ficaram “às escuras” até as 16h. A preocupação da auxiliar de serviços gerais Eliane Mendonça da Silva era com a alimentação específica do filho Gabriel, de 19 anos, que sofre de diabetes.

Para não perder os dez frascos de insulina (armazenados na geladeira), ela precisou levá-los para casa de familiares. “Ele só pode comer arroz integral e leite desnatado, que já estragou”, lamentou, enquanto o seu imóvel ainda estava sem energia, pela manhã.

A poucos metros dali, o mesmo drama: Irani Aparecida Alves, 56 anos, segurava nas mãos um frasco de insulina que perdeu por causa da falta de energia. “É muito tempo para restabelecer a energia. Minha diabetes (glicose), hoje, está 230, mas o normal é 110. Sem o medicamento, pode subir ainda mais”, pontuou a dona de casa, reclamando de dores de cabeça.

O aposentado Luiz Carlos de Oliveira, 58 anos, morador do Jardim Pagani, enfrentava um problema inusitado: a residência dele, que fica na quadra 1 da rua Valter Fernandes Cardoso, é a única que estava sem energia entre as demais do quarteirão.

“Vi galhos de árvore sobre o poste em frente de casa, o que deve ter ocasionado o problema. Até agora (na hora do almoço), nada de consertarem.  É um desrespeito demorar tanto para consertar. Eu ligo na CPFL e ninguém me atende. Um absurdo!”, reclama.

Mais prejuízos

A energia no Distrito de Tibiriçá, mais precisamente no bairro Shinohara, só foi restabelecida ao meio-dia de ontem, ou seja, 38 horas após o temporal. O produtor rural Luiz Teixeira perdeu 800 quilos de mandioca que mantinha no freezer: prejuízo de R$ 2 mil.

Já a perda do criador de vacas leiteiras Manoel Faria foi ainda maior. “Sem energia, a ordenhadeira (equipamento para tirar leite) não funciona. Mesmo que tirarmos manualmente, não tem como mantê-lo sem o resfriador funcionando. Perdi 200 litros de leite”.

Não é de hoje que o proprietário de uma empresa especializada em melhoramento genético de suínos, Paulo Rangel, enfrenta problemas com falta de energia. Em janeiro deste ano, um “apagão” foi responsável por um prejuízo de R$ 10 mil, conforme o JC divulgou na época.

O transtorno, no entanto, se repete mais uma vez. “A situação chegou em um ponto que temos que andar com as próprias pernas. Precisei locar dois geradores e já estou pensando em comprar o equipamento para não ficar de novo na mão”, critica.

Outro lado

Em nota, a CPFL Paulista manteve a mesma posição em relação aos blecautes: alega que a situação climática registrada foi totalmente atípica e trabalhava sem interrupções para solucionar o problema. Novamente, a companhia não detalhou as causas dos apagões.

Apagões em 2015

De acordo com levantamento extraoficial feito pelo JC, somente neste ano, foram ao menos quatro blecautes de longa duração em Bauru. O primeiro ocorreu após temporal que atingiu a cidade no dia 12 de janeiro, quando 688 imóveis ficaram “às escuras” por mais de 15 horas. 

Em maio, no dia 10, uma chuva acompanhada de granizo e ventos de até 60 quilômetros por hora foram responsáveis pela queda de energia na cidade. A CPFL demorou dezenas de horas para reestabelecer a energia a 30 mil clientes – em torno de 120 mil pessoas. 

No dia 8 deste mês, ao menos 3 mil clientes ficaram “no escuro” por cerca de 27 horas, após forte chuva que atingiu a cidade. Entre a última sexta e domingo, dois temporais castigaram Bauru e resultaram em 4.500 imóveis sem energia, conforme o Jornal da Cidade divulgou.

Comentários

Comentários