Política

José Serra: "PSDB deve evitar o quanto pior, melhor..."

Vinicius Lousada
| Tempo de leitura: 5 min

Aceituno Jr.
Serra concedeu entrevista na redação do JC, ao lado de Tobias 

Mesmo com discurso mais comedido do que alguns de seus companheiros tucanos, o senador José Serra (PSDB) considera difícil que a presidente Dilma Rousseff (PT) permaneça no cargo por muito mais tempo. Pior: ele avalia o momento atual como o mais delicado desde a redemocratização do País, há 30 anos.

O balanço sobre as conquistas e os problemas das últimas três décadas no Brasil, aliás, foi a pauta de sua palestra no encerramento da Semana Cultural da Instituição Toledo de Ensino (ITE), na noite dessa sexta-feira (2). Antes, acompanhado do deputado Pedro Tobias (PSDB) e de outras lideranças políticas regionais, Serra concedeu entrevista na redação do Jornal da Cidade e visitou o espaço Café com Política.

Jornal da Cidade- Por que o cenário atual é mais difícil do que os de outras crises da democracia recente?

José Serra- Por incrível que pareça, o nó é mais intrincado hoje. Em meados da década de 1980, tivemos a morte do Tancredo [Neves, escolhido pelo Colégio Eleitoral] antes de sua posse, o que levou à Presidência o José Sarney, que comandava o PDS, partido do regime militar. Depois, passamos pelo impeachment do Collor, que também foi um momento traumático. O atual é mais sério pela combinação de crises política, econômica e moral. Essa combinação produz resultados adversos, em meio a um governo que não funciona. O desemprego está aumento. Mais de 1,2 milhão de pessoas perderam seus postos só neste ano. Enfrentamos a queda na renda, a insegurança sobre o futuro. A situação é difícil, mas será superada. Só temos que ver como e a que custo.

JC- O enxugamento e a reforma dos ministérios, combinado com a concessão de mais poder ao PMDB pode fortalecer o governo?

José Serra- É muito barulho por pouca coisa. Essas medidas não terão grandes efeitos até porque sequer houve entendimento com a direção do PMDB. Buscou-se aumentar a base de apoio entre os deputados para evitar o impeachment, que é a preocupação número um da presidente, que não consegue governar direito e emprega o melhor de seu tempo para não perder o cargo. É um processo muito incerto.

JC- Parte do PSDB encampou o discurso pró-impeachment. Agora, o partido tem sido cobrado para apresentar alternativas, especialmente ao pacote de medidas impopulares do governo. Quais são elas?

José Serra-  Acho que muita gente do PSDB está seguindo a lógica do quanto pior, melhor. É um equívoco e não corresponde ao histórico do partido. Não dá para se posicionar a favor de medidas que farão mal ao Brasil, por conta do desgaste que elas trariam ao governo [referindo à pauta bomba dos vetos da presidente Dilma Rousseff a propostas que colimariam em despesas bilionárias]. Até porque o nível de desgaste é imenso. Não é necessário comprometer o futuro do País.

JC- A volta da CPFM seria uma saída?

José Serra- Não vai acontecer. Acho, aliás, uma besteira o governo gastar energia com algo do tipo. Está todo mundo enforcado. Eles não conseguiram em 2007, com o Lula ainda forte na presidência...

JC- Caso a presidente saia do cargo, o PSDB terá a responsabilidade de apoiar um eventual governo de Michel Temer?

José Serra- Se ele assumir, devemos colaborar estabelecendo condições. Vai depender das diretrizes e do perfil do próximo governo. Precisamos fazer isso para que o Brasil, pelo menos, pegue o caminho para a saída da crise. Mas acho prematuro discutir isso agora.

JC- A democracia e as instituições estão em xeque?

José Serra- Não creio. Isso é um fantasminha exibido pelo PT para justificar a instabilidade no País enfrentada hoje.

Petrobras

José Serra rebate acusações contra seu projeto que desobriga a Petrobras a ser a única operadora da exploração do pré-sal, exigindo que a estatal aporte 30% dos recursos necessários para os investimentos. A proposta é considerada “privatista” por setores do governo.

“Esse pessoal está sem discurso. O PT quebrou a Petrobras, não apenas com lambanças, mas também com a megalomania e o congelamento de preços dos derivados de petróleo para atender a interesses eleitorais. Todas essas medidas culminaram em prejuízos de R$ 160 bilhões, não corrigidos. Eles aleijaram a empresa que, agora, tem dívida de R$ 500 bilhões”, pontua.

O senador explica que, atualmente, a petroleira não tem condições de fazer esses investimentos e, se não houver mudanças, não haverá exploração do pré-sal em grande escala. “O texto tira a obrigatoriedade, mas garante a preferência caso haja o interesse da Petrobras. A proposta não mexe na regra da partilha nem diminui os royalties destinados à Educação. Pelo contrário: se não houver investimentos, não tem royalties. É uma farsa do PT. Quando eles não têm o que dizer, inventam. O projeto é patriótico”, garante Serra.

‘Democracia não soube trazer desenvolvimento’

Na palestra dessa sexta (2), na ITE, Serra fez uma avaliação dos ganhos e das faltas acumuladas ao longo dos 30 anos de redemocratização. “É o período mais longo de democracia no Brasil. Houve conquistas importantes: liquidamos a superinflação, a agricultura se consolidou de forma competitiva, em escala mundial. Por outro lado, a democracia não soube trazer o desenvolvimento. O sistema por si só não garante isso. Não soubemos promovê-lo. Reverter esse cenário é uma tarefa crucial para o futuro”, diz o senador.

E compara: entre 1950 e 1980, a renda por habitante cresceu 3,6 vezes. De 1985 a 2015, essa variação foi de 1,4; apenas 40%, índices muito inferiores aos de outros países emergentes. “Temos que ser mais pragmáticos e menos doutrinários. O primeiro passo é diminuir o custo Brasil. A importação de um produto custa cerca de 25% do que a produção nacional, em função da nossa carga tributária e da deficiência em infraestrutura”, afirma José Serra.

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