Era tarde quente, tipo Rio 40 graus, eu só queria um refresco, a buzina não enganava: era o sorveteiro. Chamei-o sem hesitar, foi minha salvação, ele veio ao meu encontro com olhar de cansaço, talvez de esperar, ou de caminhar tantas horas. Ele então abriu o seu carrinho e de lá se viu uma porção de picolés. Afirmei a ele: “No verão vende bem!”, e ele respondeu na sua humilde expressão “Mais ou menos”.
Comprei oito, não porque precisava de muitos, mais para alimentar naquele senhor a esperança de dias melhores. Quantos e quantos senhores desses não estão carregando nas costas o peso dos maiores, que por mais que caminhem por horas, não conseguem esvaziar seus carrinhos; o padeiro, o confeiteiro, o lixeiro, o catador de recicláveis, o gari. Pois é, a gente nunca tenta reparar na luta dessas menores classes, mais elas existem e estão por aí nas ruas, tentando manter seu pequeno negócio, sua pequena venda, tentando sobreviver. E estamos assim como picolés derretendo suscetíveis ao calor do sol. Está faltando mais gelo ou será que mais dinheiro?