Tribuna do Leitor

Mudam os artistas, mas o palco é o mesmo


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Existe uma simetria entre a atual crise política contemporânea e a crise que levou Getúlio Vargas ao suicídio. De fato, mudaram-se os atores, mas o palco continua o mesmo, onde a velha elite golpista brasileira, inconformada com as mudanças ocorridas, tenta a via do rompimento da ordem democrática. Carlos Lacerda proferiu a seguinte frase contra Getúlio Vargas: “Não pode ser candidato. Se for não pode ser eleito. Se eleito, não pode tomar posse. Se tomar posse não pode governar.”. As alianças entre as elites e a mídia sempre foram fatores incontestes em nosso país. Trincheira do ideário de desnacionalização e submissão incondicional dos interesses inconfessáveis dos conglomerados internacionais, sempre encontrou terreno fecundo em nossa elite complexada.

Acostumados a denunciar, julgar e condenar a despeito dos fatos reais, vituperavam contra o que se denominou o mar de lama sobre o governo Vargas. Desestabilizavam indiscriminadamente o Brasil, manipulavam criminosamente as informações, e pregavam o golpe à luz do sol. Queriam não apenas derrubar o governo Vargas, mas humilhar seu legado, e banir o ideário trabalhista que Getúlio representava. Foi neste cenário de irracionalidade e irresponsabilidade política que a UDN e Carlos Lacerda defeririam os golpes mais baixos. Acuado no Catete, Getulio Vargas num ato impensado pela oposição, se suicidou e deixou uma carta denunciando as conspirações. Morria o homem, nascia o mito, o Estadista.

O povo que era escravo se revoltou com o desfecho da crise, e a UDN e Carlos Lacerda sofreram uma de suas piores derrotas. Guardadas as devidas proporções, inclusive no que diz respeito aos personagens, vivemos hoje os mesmos ambientes que levaram Vargas ao suicídio. Evidentemente que a oposição golpista liderada pelo PSDB não tem nem de longe um Carlos Lacerda, já que os “pseudo-lacerdistas” sofrem de carência intelectual e prestígio. Entretanto, a aliança do monopólio midiático com as elites está estruturada e entrincheirada para caluniar, criminalizar, e julgar o governo. Não há racionalidade e nem responsabilidade no debate político, sendo o cerne a derrubada da presidenta e a marginalização do seu partido.

Os mesmos argumentos são utilizados, como o mar de lama, a desestabilização da economia também é empregada, assim como as notícias são manipuladas conforme os interesses oposicionistas. O ódio desferido cotidianamente, assim como fizeram contra Vargas, exala as incômodas e inaceitáveis derrotas sucessivas nas eleições. Desprovidos de votos, imersos na inação, necessitados de projetos, carentes de credibilidade, o único caminho vislumbrado para se chegar ao poder é o golpe. Cabe às forças vivas da sociedade a defesa não do governo, mas do Estado Democrático de Direito e a ordem Constitucional, até porque para a elite tanto faz o rompimento democrático já que são acostumados a dar golpes.

 

 Henrique Matthiesen

 

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