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Os irresponsáveis

Pedro Grava Zanotelli
| Tempo de leitura: 3 min

Aquilo que deveria ser regra virou exceção e o que nem deveria existir, virou regra. Toda pessoa investida em cargo ou função pública recebe poderes e assume a responsabilidade pelo seu exercício, com a característica de que essa responsabilidade deve ser comandada pelo interesse coletivo. Agentes políticos, como chefes do Executivo, membros do Poder Legislativo, ministros de Estado e secretários, em todas as Unidades da Federação, são cidadãos comuns, com seus legítimos interesses pessoais, mas transitoriamente com a obrigação de colocar o interesse da coletividade acima dos seus. Nem devem se esquecer de que antes e depois do mandato estarão na vala comum dos outros mortais. 

Essa deveria ser a regra, mas a realidade não é assim. O que sempre vimos, e agora de forma mais abusada, é o sacrifício do interesse público em benefício da comodidade e riqueza pessoal de muitos desses agentes políticos. Sem contar os casos de prefeitos, vereadores, governadores e deputados investigados, processados e presos por saquear as finanças públicas, em benefício próprio, como o daquela prefeita que comprava carro de luxo com dinheiro da merenda escolar, vejamos a situação de Brasília, onde o cargo de ministro virou mercadoria de escambo – um ministério por tantos votos na Câmara e no Senado.

A situação de Brasília é de uma irresponsabilidade vergonhosa – ministros são descartados por telefone ou são trocados de ministério como se troca de lugar numa casa de espetáculos. Veja alguns casos: depois de procurar um candidato que merecesse respeito, para a pasta da Educação, como Diógenes com sua lanterna, a presidente encontrou o professor Renato Janine Ribeiro e agora, sem mais nem menos, está trocando-o pelo Aloísio Mercadante, “um coringa” ministerial. O Ministério da Saúde, com seu gigantesco fardo de problemas, depois de servir de plataforma política do Padilha foi entregue a Arthur Chioro, que apesar da boa vontade, não conseguiu tirá-lo do atoleiro e foi afastado por telefone. Você imagina que alguns daqueles candidatos do PMDB, que brigam pelo cargo, o querem porque poderão fazer o que os outros não puderam? Acompanhemos o desdobramento dessa bagunça para ver até quando aguentaremos sobreviver.

Enquanto a crise vai tornando mais difícil a vida do cidadão que depende de emprego ou de aposentadoria, depois de muito trabalhar, lá em Brasília os agentes políticos estão a anos/luz da necessidade de conter gastos. Um exemplo está na denúncia feita pelo jornalista Ricardo Boechat: desde janeiro, autoridades federais fizeram 2206 voos em jatinhos da FAB para realizar viagens de “serviço” e viagens “residenciais”, apesar da política de austeridade e corte de gastos do governo. Uma estimativa dá um gasto de R$ 176,4 milhões, só neste ano. E o Congresso aprovou projetos que aumentaram os gastos que devem ser cobertos com mais sacrifício da população. 

Onde estão os ‘grandes’ avanços do governo lulopetista? No número de proprietários de telefone celular com internet, de televisores HD, ou de doentes que não conseguem tratamento? Ou de trabalhadores que estão perdendo o emprego? Mas não critique só o PT. A história é antiga. Marco Túlio Cícero, grande tribuno romano, da época dos Césares, escreveu sobre eles: “Serão lembrados como grandes e, no entanto, ninguém saberá ao certo onde repousa sua grandeza. Acredito que decifrei o enigma: eles só amaram a si mesmos. Em ocasião alguma eles se esqueceram de seu dever para consigo mesmos, ou sua vantagem própria. Por essa mágica conseguiram convencer a todos os homens que os Césares eram homens invulgares, na verdade, e que mereciam a homenagem e o amor.” E os nossos recebem o título de “Doutor Honoris Causa”.

 

O autor é ex-presidente da Ordem dos Velhos Jornalistas de Bauru.

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