Quando me encontro com algum/a paraguaio/a, sinto um peso na consciência. Penso no gesto que faltou para que um dos países da Tríplice Aliança se negasse a sucumbir aos ditames da Inglaterra e se negasse a perpetrar o genocídio contra o povo paraguaio, constituído por maioria indígena. Que fizeram eles contra o Brasil, a Argentina e o Uruguai? Países, ditos civilizados, inventaram o fascismo e o nazismo, causando tanto sofrimento a milhões. Muitos aplaudiram. Se as reações tivessem sido mais contundentes, a ascensão de ambos, provavelmente, não teria triunfado. Os massacres no Vietnã, no Afeganistão, no Iraque, foram financiados pelos que participam da OTAN e aplaudidos por milhões de estadunidenses e outros ocidentais. Povos da África estão sendo dizimados sem que cause uma reação à altura.
Na África do Sul, Nelson Mandela e seu povo tinham razões de sobra para não aceitar um acordo subalterno, mas em nome da paz, aceitaram a conciliação. A população negra perdeu muito e continua perdendo, mas não se pode prever a amplitude dos conflitos que foram evitados, os números de mortos e mutilados, o imenso sofrimento. João Goulart poderia reagir à truculência com que a ilegalidade, seguida da ditadura de mais e duas décadas, se abateu sobre o Brasil. No entanto, como ele próprio afirmou, quis evitar um banho de sangue. E evitou. A ditadura foi muito pior do que os jornais disseram, mas a reação de João Goulart evitou uma guerra civil.
Adolfo Peres Esquivel uniu-se a mais outros/a laureados/a pelo Nobel da Paz a fim de pressionar o presidente Bush a não invadir o Iraque. No Fórum Social Mundial, em Porto Alegre, mais de 100 mil marcharam pela paz. Integrantes da Marcha Mundial das Mulheres se mobilizaram no mundo todo, do nascer ao por do sol,contra a invasão. Em 2012, o governo russo propôs um acordo de paz na Síria que previa a renúncia do presidente Bashar al-Assad. Em fevereiro de 2012, Marti Ahtissari, ex-presidente da Finlândia, tentou mediar a proposta da Rússia junto aos demais membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU. Em vão: Estados Unidos, Inglaterra e França tinham tanta certeza de que Bashar al-Assad cairia, em poucas semanas, que recusaram qualquer diálogo.
O conflito já tinha resultado em 7.500 mortes. Desde a negativa do acordo de paz proposto por Putin com a mediação de Marti Ahtissari (Prêmio Nobel da Paz em 2008), houve mais de 230 mil mortes e 11 milhões tiveram suas casas destruídas. Ademais, permitiu a ascensão do sangrento Estado Islâmico e o fortalecimento da Al-Qaeda. Houve um belo gesto de paz, mas não repercutindo, um banho de sangue ainda está em curso.
A autora é professora aposentada da Unesp