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Tempos de esperar

J.F. da Silva Lopes
| Tempo de leitura: 3 min

Boa parte de cada vida se consome com períodos de espera, às vezes mais outras vezes menos longo. Num certo sentido o verbo esperar nas suas variáveis flexões constitui o principal verbo de nossas vidas. Afinal, a cada dia esperamos pelo dia seguinte com suas naturais expectativas, pelo nascer do sol, pela boniteza do dia, pela agenda a ser cumprida, pelo turno de trabalho, pelos momentos de lazer, pelos encontros agradáveis, pela nascimento da lua e estrelas que enfeitam o céu, pelo final de semana, pelo recebimento de salários, pelas férias, pelas viagens, pelos resultados de exames médicos, pelas notas escolares, pela chegada das contas, pelas datas de pagamento com débito em conta ou nas filas de bancos, numa lista infinita e quase eterna até que sobrevenha a não pensada e nem desejada morte. Viver, fundamentalmente é esperar pelos bons e pelos maus momentos de cada vida, acompanhados e intercalados pelos inevitáveis momentos de angústia porque toda espera é angustiante.


Ao lado dos tempos de espera e angústia individuais também somos forçados a conviver - sem nada por fazer - com tempos de espera e angústia coletivos e sufocantes, geralmente mais delicados e muito mais dolorosos porque carregados de expectativas coletivas incertas, marcadas por elevados níveis de tensão e com inesperados desfechos que atingem a quase todos em diferentes graus e com diferentes consequências coletivas e individuais.


No sufoco dessa crise política, econômica e moral que tanto aflige a pátria amada, os cidadãos comuns dessa democracia representativa cujo poder se resume à periódico exercício do voto só resta a preocupante angústia da espera enquanto por todos eles alguns poucos decidem pelo ajuste fiscal, pelos vetos da pauta-bomba, pelos julgamentos da lava-jato, pelo destino político, penal e empresarial dos envolvidos, pela preservação dos empregos, pela retomada do desenvolvimento para que se confirme o vigor e o grau de resistência de nossas instituições, sem conchavos, sem ajustes espúrios e sem tolerância quanto a condutas e participações de partidos, de representantes políticos e de agentes públicos, com apuração de suas responsabilidades e aplicação justa e isonômica das punições que devam receber, sem qualquer exceção.


Depois dessa longa e sufocante espera que ninguém tem condições de antever quanto tempo durará e em que condições acabará o resultado final não poderá ser marcado pela decepção coletiva. A expectativa é que as instituições estatais funcionem adequadamente, que o desenvolvimento seja retomado, a vida política seja passada a limpo e que coletivamente se restaure desde lá do fundo do poço a linha moral de convivência destrutivamente conspurcada. Antes que o fundo do poço afunde mais.


Depois desse tempo incerto de espera não é tolerável que tudo termine como termina a frustrada espera por Godot (Beckett, 1953) ou como a decepcionante situação do tropeiro que depois de cavalgar por léguas até tosco ponto de venda de beira de estrada que permitisse abastecer sua caravana com mantimentos e lá só encontrou algumas poucas medidas de feijão, meia dúzia de ovos frescos, três cocos secos e um litro de cachaça que, por não ter embornal ou piquá ou mochila, não conseguiu comprar do meticuloso e resistente vendeiro, recusada a venda porque os produtos não davam bom e seguro embrulho. Nosso tempo de espera também pode ter esse fim, o que nos empurrará uma vez mais para novos períodos de espera, cada vez com menor carga de esperança. Infelizmente.


O autor é advogado e articulista do JC

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