| Malavolta Jr. |
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| Marcos Vinicius: um curioso ao extremo |
Marcos Vinícius de Almeida, 41 anos, é um cientista na verdadeira concepção da palavra. Conforme o JC noticiou, ele é um dos membros da equipe que estudou e patenteou a fosfoetanolamina sintética, substância que surge como esperança contra o câncer e que vem causando polêmica e uma verdadeira corrida de pacientes à USP de São Carlos, onde ela é produzida por Salvador Neto, membro de seu grupo de pesquisa.
Uma disputa judicial passou a obrigar a USP a fornecer o produto que, no entanto, ainda está em fase de pesquisa. No olho do furacão da polêmica, Marcos Vinícius está tranquilo, é ponderado, defende maior investimento na produção do composto e pede para que os pacientes não abandonem o tratamento tradicional, porque os estudos clínicos ainda não foram concluídos, apesar de muitos relatos mostrarem evidências de sua eficácia para alguns tipos de tumores. “Deem uma chance à vida, e esta chance começa pelo seu médico”, pede ele.
Bauruense nato, morador da cidade, este professor é absolutamente apaixonado pelo que faz. Aqui, ele conta um pouco de sua vida e suas pesquisas.
Jornal da Cidade - Como é estar no meio da polêmica da fosfoetanolamina?
Marcos Vinícius de Almeida – Estou tranquilo. Não é a primeira polêmica em que me envolvo. Faz parte, a ciência é assim mesmo. O novo é polêmico (risos). Até porque, em momento algum, nem eu, nem mesmo o autor da descoberta, o professor de química Gilberto Chierice, enfim, ninguém da pesquisa, nenhum dos detentores da patente da substância, apresentou-se e disse que a cura para o câncer era ou é a fosfoetanolamina sintética. Aqui, um parênteses: é preciso frisar que essa é uma substância sintética. E esse processo em que ela é sintetizada e foi patenteado por nós é único. Não adianta sair comprando outro tipo de fosfoetanolamina...não é a mesma coisa.
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| Em família: o pesquisador com a esposa Daniela Argento Squinca |
JC – A USP de São Carlos emitiu uma carta dirigida a pacientes de câncer que estão requisitando as cápsulas na Justiça, dizendo que a substância não é remédio e ainda não desenvolveu estudos sobre a ação do produto nos seres vivos.
Marcos – Essa é uma polêmica que não quero comentar. Aliás, não precisamos dessa polêmica, existem estudos em seres vivos sim, estudos pré-clínicos, porém, precisamos de mais estudos, de mais investimentos para pesquisa. E, depois, a maioria dos comentários são positivos, benéficos. As críticas são poucas.
JC – E o que é exatamente a fosfoetanolamina?
Marcos - É um fosfolipídio, uma substância que todos produzimos no nosso organismo. É produzida no fígado e músculos longos. É algo que todos os seres humanos trazem dentro de si encontradas na bainha mielina de neurônios, por exemplo.
JC – Como se chegou ao entendimento de que ela poderia atuar contra o câncer?
Marcos – Há décadas, os estudos químicos dos tumores mostravam que todos eles têm, entre seus componentes, um aumento excessivo de fosfoetanolamina. Pensava-se que ela poderia ser a causa do tumor. Até que, no início dos anos 1990, o professor Gilberto, que já pesquisa a cura do câncer há 25 anos, se dispôs a pensar diferente: e se esse aumento fosse uma defesa do organismo? Uma forma de o corpo tentar se livrar do tumor? E foi nessa linha que começamos a trabalhar totalmente diferente dos paradigmas exposto até aquele momento.
JC – O convite veio do professor Gilberto?
Marcos – Começou como iniciação científica conjunta entre a USP e a Unesp de Bauru, onde eu estava em 2005, participando já no mestrado. Éramos seis participantes. Cada um desenvolvendo sua parte. No início, o professor Gilberto não entrava em detalhes, exigia trabalho e dedicação e resultados submetidos à estatística e comprovação com base em evidências. À medida em que evoluímos neste estudo já em parceria no Instituto Butantã e com resultados evidentemente excelentes, resolvemos patentear o produto. E essa produção é feita de forma laboratorial e com fidelidade científica. Obedecendo todos os parâmetros da comunidade científica internacional. Há uma metodologia para isso, que é usada rigorosamente. E está dando resultados. Mas é preciso deixar claro que nem todo tipo de tumor ela foi avaliada, pois são muitos os existentes.
JC – Foi por isso que vocês foram homenageados essa semana no Rio Grande do Sul? (Nota da redação: o professor Gilberto Chierice recebeu a Medalha do Mérito Farroupilha, a mais alta honraria do Parlamento Gaúcho junto com a equipe).
Marcos – Sim, estávamos lá, em meio a enchente do Rio Guaíba, em Porto Alegre. Foi lindo. Estávamos lá eu, e os professores-doutores, Salvador Claro Neto, Renato Meneguelo o advogado do grupo Juliano de Freitas Oliveira. Ouvir o hino sendo cantado espontaneamente pelos expectadores em nossa homenagem foi indescritível, o interesse em desenvolver o produto, é emocionante demais. Os gaúchos saíram na frente para ampliar as pesquisas da substância e oferecer a ajuda que, até então, não tivemos. Uma ajuda que englobou Legislativo, Executivo e Judiciário, fora entidades civis, maçonaria entre outros.
JC – E como lidar com a expectativa dos pacientes, das pessoas que querem os remédios?
Marcos – Não é fácil e é dolorido. Já perdi meu avô com câncer, é desumano. Tenho mais casos na família. Amigos que estão fazendo a radioterapia, a quimioterapia, o processo normal. Tenho uma enxurrada de apelos no meu Facebook, nas redes sociais. Pais pedindo pela vida dos filhos, pessoas pedindo pela própria vida. E é preciso deixar claro que eu não tenho uma única cápsula para fornecer, tudo é produzido pela USP de São Carlos. Não é fácil dizer não e não poder atender a expectativa, incluindo de pessoas próximas. E quando alguém morre, então, a sensação de impotência é grande.
JC – Como você lida com essa pressão?
Marcos – Quando está demais e quando posso, vou pescar. É o único jeito, mas, agora, nem pescaria está dando tempo.
JC – E a família? Como fica?
Marcos – Sou um pai presente. Ao contrário do que possa parecer, embora um cientista trabalhe e pense no assunto 100%. “ Se você não estiver pensando na solução do problema quando estiver tomando banho, então não é um bom cientista”, já dizia um professor meu (risos) . Dou banho, troco roupa, dou comida para meu filho. E a minha mulher, então? É uma leoa. A Daniela me ajuda demais, entende a importância dos estudos. Nos conhecemos há quinze anos ou mais. Éramos amigos e a amizade evoluiu para o casamento. E dos meus pais, o que dizer? O apoio também é total. Sem falar que foram eles que custearam minha vida acadêmica para que eu me tornasse o que sou.
JC – Falando em custear, a ideia que se tem é de que todo cientista, quando faz uma descoberta dessas, fica rico...
Marcos – Nada disso. Pode mudar o pensamento (risos). Tenho dois empregos para poder manter a família. Até outro dia, tinha três. Trabalho full time e durmo pouquíssimo, só cinco horas por noite. Além disso, todos nós da pesquisa da “fos” fizemos um contrato de não nos beneficiarmos monetariamente e pessoalmente. Todo e qualquer lucro que seja conseguido será revertido pra criação de um instituto de pesquisa pra darmos continuidades a outros produtos que desenvolvemos como polímeros e outros medicamentos. Ninguém do grupo ganha nada por essa descoberta.
JC – A propósito, o senhor é doutor?
Marcos – Sim, já fiz três faculdades (engenharia agronômica, nutrição, biologia). Em síntese sou biólogo pela Unesp-Bauru, bioengenheiro pela USP de São Carlos e doutor em biotecnologia pela UFSCar. Sou também professor universitário e pesquisador do Departamento de Química da Unesp – Bauru.
JC – O que o levou a essa profissão? O gosto pela pesquisa vem de onde?
Marcos – Sou curioso ao extremo. Não sou pesquisador, pesquisador é quem faz o censo (risos). A pesquisa científica, sem dúvida, faz parte da ciência, mas ser cientista é algo maior e é o que faz com que o mundo ande. Sou hiperativo, preciso saciar essa curiosidade. Minha mente ferve. Minha vida é o estudo.
JC – O senhor é cristão?
Marcos – Tive uma formação católica, mas sou um cético probabilista. E, dessa forma, não condeno nenhuma religião e valorizo a liberdade de crença de cada um.
JC – Mas estudos mostram que a crença em Deus, a fé, auxiliam o doente, até na cura. quem tem fé, quando acometido por uma doença grave, vive mais.
Marcos – Como disse o médico Dráuzio Varella, está cheio de gente de pensamento positivo e fé no necrotério. De um jeito ou de outro, com fé ou sem fé, todos iremos morrer. Mas, sem dúvida que o desejo de cura ajuda. Então, em vez de falar em fé, eu digo que é preciso ter o desejo de se curar. Isso sim faz a diferença.
JC – Para quem está desesperado pelo remédio, qual seria o seu recado?
Marcos - Suplico por ponderação e bom senso. É preciso que não abandonem seus tratamentos médicos, que não duvidem da capacidade de seus profissionais, que não interrompam tratamentos aprovados e indicados pelos mesmos, ouçam 2, 3 ou 10 opiniões diferentes. A fosfoetanolamina é uma ajuda a mais na decisão pessoal de cada um.
JC – Por enquanto, o senhor está satisfeito com os rumos da fos?
Marcos – Não 100% satisfeito, mas, como disse antes, o que pedíamos e pedimos é a continuidade das pesquisas e isso foi gentilmente proposto pelo Rio Grande do Sul. Já está sendo realizado dentro de todas as normas estabelecidas. Mas não se há tempo hábil pra se relatar todo passo dado neste sentido, nem mesmo estabelecer uma previsão exata de conclusão destes estudos. Tudo ainda é muito inicial, mas já foi iniciado.
JC - Para finalizar, um recado aos portadores de câncer?
Marcos - Deem uma chance a vida, e esta chance começa pelo seu médico. Eles conhecem seu caso em particular.
Perfil
Nome: Marcos Vinícius de Almeida
Idade: 41 anos (24/8/1974)
Local de nascimento: Bauru
Esposa: Daniela Argento Squinca
Filhos: Cauã, 3 anos
Livro de cabeceira: “O Mundo Assombrado pelos Demônios”, de Carl Sagan
Hobby: Pescaria e fotografia
Estilo musical predileto: MPB, jazz e world music, caipira
Time de futebol: Corinthians
Para quem dá nota 10: Para meus pais, Orandi de Almeida e Maria Palmira Zagatto de Almeida
Para quem dá nota 0: Para os deputados Jair Bolsonaro e Marco Feliciano, todo o preconceito tem que ser banido

