Nunca solte um distraído em férias pelo Centro da cidade. A pé, então, ainda pior. Porque ele vai olhar fachadas, divagar sozinho, mergulhar em passado distante e pensar sem compromissos. Mas nunca, seja qual for a imersão mental, deixará de cumprir seu ofício: um distraído sempre esquecerá algo em algum lugar.
Só depois de caminhar mais 20 minutos é que pude perceber o motivo da minha estranheza em relação às mãos leves, livres e soltas. Parecia faltar algo, e faltava: uma sacola plástica esverdeada, não transparente, dentro da qual estavam uma tesourinha e um cortador de unha e três livrinhos infantis bem finos. Total da compra: R$ 6,40. Barato demais. E lá ficaram esquecidos em um suporte no banheiro do Poupatempo.
Esquecer é uma incrível capacidade humana. O apagão momentâneo, por vezes, gera situações cômicas e inusitadas. Tenho um amigo que esqueceu a filha. Sem celular, ele saiu com ela, parou em várias casas para dar um “alô” e, em algum momento da tarde, já não sabia em qual a garota havia ficado. O mesmo distraído chegou, em outra ocasião, a registrar boletim de ocorrência pelo sumiço de sua moto – que o tempo todo esteve estacionada em uma esquina qualquer.
Esse aí da filha e da moto não sou eu, até porque nem tenho carta de moto. Mas o da sacola, sim, sou eu – e tudo aconteceu na sexta-feira. Ontem, mais um sábado bem quente, acordei dando lição de moral, em tom solene, em casa: “Claro que a sacola estará lá à minha espera. Eu ainda acredito na humanidade”. Na administração do Poupatempo fui informado de que nenhuma sacola havia sido devolvida. No tal suporte, o vazio: alguém resolveu cuidar da órfã sacola por mim.
É preciso, contudo, relativizar o prejuízo e refazer as contas da distração. Porque na mesma tarde de sexta da sacola eu também errei uma rua na minha maratona por despachantes – e acabei ouvindo a voz no microfone da drogaria a convidar: “Faça teste de glicemia”. Fui o último beneficiado pela ação gratuita – e a moça que furou meu indicador disse que, “em dias normais”, é cobrada “taxa” de 10 reais.
Ou seja: a distração levou a uma perda de um lado e a um ganho ainda maior de outro. O maior de todos foi saber que meu nível de glicose no sangue está legal, segundo o tal teste rápido. Minha saúde, nesse quesito específico, ainda não foi pro saco. E muito menos pra sacola.
O autor é editor executivo do JC