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Conselho Tutelar vira "divã" de família

Tisa Moraes
| Tempo de leitura: 3 min

João Rosan
Ieda Maria de Souza afirma que a função de porta de entrada para solução de conflitos no Conselho Tutelar foi intensificada

Porta de entrada para a solução de conflitos familiares. Esta tem sido a principal função dos dois Conselhos Tutelares de Bauru, que realizam, juntos, cerca de 100 atendimentos diários. Deste total, aproximadamente 60% são voltados a orientações aos pais, que buscam no órgão uma forma de superar os problemas de relacionamento com seus filhos.

Presidente do Conselho Tutelar 2, Ieda Maria de Souza explica que a convivência insustentável no ambiente doméstico resulta de relações familiares desajustadas, que tendem a se agravar quando há a dissolução do casamento. “Este momento é sempre traumático para os filhos porque eles vão deixar de conviver diariamente com o pai ou com a mãe, que são sempre uma referência. Mas a situação pode se tornar ainda pior quando a criança ou o adolescente é envolvido na briga que deveria ser somente dos adultos”, comenta ela, que concedeu entrevista ao Jornal da Cidade em nome dos dois conselhos de Bauru.

Entre os conflitos, ela cita o ente que fica com a guarda e proíbe o ex de visitar o filho, ou ainda disputas relacionadas à guarda, ao atraso no pagamento de pensão alimentícia ou a respeito da interferência na educação da criança por parte de novos parceiros do antigo cônjuge. “Isso tudo pode refletir no comportamento deste filho e os pais, que têm o dia tomado pelo trabalho, sequer percebem”, pontua.

Ao inserir a criança ou o adolescente em uma rotina familiar tumultuada e não acompanhá-los e ampará-los em suas necessidades, as repercussões, segundo Ieda, tendem a se repetir. “Este filho começa a se tornar rebelde, faltar às aulas, abandonar a escola, ficar recluso, agressivo e até começar a usar drogas, que é uma situação difícil de contornar, porque muitos já estão partindo da maconha para o crack”, alerta, destacando que, em boa parte dos casos, as famílias tentam transferir suas dificuldades na criação dos filhos para a escola ou para o conselho porque “não sabe mais o que fazer”.

“Às vezes, procuram até o Ministério Público ou a Vara da Infância e Juventude. Mas o que a gente sempre pede é que, na dúvida, antes de bater na criança, antes de desistir, os pais busquem ajuda. O Conselho Tutelar está sempre de portas abertas”, salienta.

Mudança familiar

 

Segundo Ieda, esta função de “porta de entrada” assumida pelo Conselho Tutelar acabou intensificada a partir da diversificação da configuração dos núcleos familiares, favorecida pelas facilidades legais e pela maior aceitação social a respeito do divórcio. Quando os conflitos chegam ao órgão, a primeira medida é ouvir os pais e os filhos para tentar esboçar um diagnóstico que, em algumas situações, pode indicar a existência de problemas mais graves, como maus-tratos e abusos sexuais no ambiente doméstico. 

Dependendo do caso, os encaminhamentos são realizados às instâncias competentes, que podem ser desde os serviços da rede de assistência e saúde municipal até o Poder Judiciário. A presidente do conselho destaca que, muitas vezes, o atendimento psicológico especializado já é suficiente para minimizar os conflitos, a partir da proposta de aumento do diálogo e da presença dos pais na vida dos filhos. 

“E o problema não está concentrado nas famílias de baixa renda. Muitas crianças têm todos os bens materiais de que precisam e até o que não precisam: tênis e roupas de grife, celular de última geração. Mas falta cuidado com o desempenho escolar, preocupação com o futuro deste filho. Falta oferecer suporte emocional e orientação para que ela chegue à vida adulta com perspectivas”, completa.

 

Vagas

 Ieda Maria de Souza relata que a procura por vaga em creche responde por quase a totalidade dos 40% de atendimentos restantes realizados pelos Conselhos Tutelares de Bauru. Nestes casos, o órgão pede que o solicitante requeira um documento de negativa de matrícula à central de vagas da Secretaria Municipal de Educação.  “Com este papel, é possível abrir a vaga por força judicial, já que o direito à educação é uma garantia do ECA”, finaliza, destacando que este tipo de demanda ocorre o ano inteiro no Conselho Tutelar.

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